Aimé Césaire, poesia fundamental, artigo de Anoushe Duarte Silveira

Aimé Césaire. Foto: Divulgação.
Uma das mais belas definições do que é cultura que eu já ouvi até hoje foi dita pelo saudoso Aimé Césaire: “é tudo o que os homens imaginaram para moldar o mundo, para se acomodar no mundo e para torná-lo digno do homem. E isso, a cultura: é tudo o que o homem inventou para tornar a vida vivível e a morte afrontável.”
Este mês, precisamente no dia 26, o poeta, dramaturgo, ensaísta e político da negritude Aimé Fernand David Césaire estaria completando 100 anos.
Segundo o poeta francês André Breton, Aimé foi um dos mais importantes poetas surrealistas no mundo inteiro, além de ser, juntamente ao presidente do Senegal, Léopold Sédar Senghor, o ideólogo do conceito de negritude, sendo a sua obra marcada pela defesa de suas raízes africanas. “A palavra é mãe dos santos/a palavra é pai dos santos/
com a palavra serpente é possível atravessar um rio/povoado de jacarés/me acontece eu desenhar uma palavra no chão/com uma palavra fresca pode-se atravessar o deserto de um dia…”
Nascido na Martinica, Césaire era filho de um pequeno funcionário e uma costureira. Com uma bolsa de estudos, conseguiu estudar no Liceu Louis Le Grand, em Paris, onde, com outros estudantes, entre eles Léopold Sédar Senghor, fundou o jornal L’Étudiant noir (O Estudante negro), no ano de 1934. Nas páginas desse jornal, apareceu pela primeira vez o conceito de “negritude”, formulando dentro da própria França uma crítica à opressão cultural do sistema colonial francês. Casou-se e voltando a Martinica lecionou Letras e fundou a revista “Tropiques”, com um projeto de reapropriação do patrimônio cultural martiniquês. Alguns anos depois, Breton, de passagem à martinica, ficou apaixonado pela poesia de Aimé.
Foi presidente da câmara de Fort-de-France, deputado (1945-2001) e fundador de um partido chamado “progressista”, decidido a instaurar a autonomia e um socialismo independente na Martinica, contrário ao comunismo tendente ao colonialismo de Stálin. Em 1946, Césaire foi o relator da lei que elevou à categoria de Departamentos Franceses várias das suas colônias ultramarinas.
Traduzida para várias línguas e reconhecida no mundo inteiro, ele mesmo considerava sua obra mais influenciada por Rimbaud e Lautréamont, precursores do Surrealismo, além de Mallarmé e a poesia negra dos EUA.
Césaire viveu a poesia e fez dela uma arma. Uma arma de protesto contra o preconceito , contra a opressão, contra o colonialismo e todo tipo de imoralidade legitimada. Em uma entrevista, no ano de 2006 disse: “Para mim, a poesia é muito importante, ela é até mesmo fundamental. Com ou sem razão, sempre pensei que a arma para nós – não acreditávamos nisso suficientemente – é a cultura…”
Como ele, acredito que a cultura é uma grande arma e que torna a vida vivível e a morte afrontável. Como seria viver sem as crenças, sem a arte, sem os costumes, sem os hábitos, a moral, sem tudo isso que traduz a cultura? O que sobraria? Sobraria o que talvez já haja em excesso espalhado pelo mundo: muita violência, preconceito, corrupção, descaso… Tudo aquilo que não nos permite viver com dignidade, com respeito, tudo aquilo que nos tira a coragem de atacar de frente a morte por ter motivos para viver.
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.