A crise climática afeta as decisões reprodutivas da juventude, artigo de José Eustáquio Diniz Alves
O impacto da crise climática e ambiental atingirá essencialmente as crianças e adolescentes atuais mas, principalmente, as novas gerações que ainda vão nascer
“Os olhos de todas as gerações futuras estão sobre vocês.E se vocês optarem pelo fracasso, eu digo que nunca iremos perdoá-los” Greta Thunberg (Nova York, 23/09/2019)
Uma pesquisa internacional feita com jovens de dez países mostra que os jovens sofrem com ansiedade sobre o futuro do planeta e uma parcela cada vez maior hesita em relação à possibilidade de ter filhos.
Já não é hegemônica a ideia de que o futuro será melhor do que o presente e do que o passado. As incertezas quanto a crise climática e ambiental estão afetando as decisões reprodutivas da juventude. Consequentemente, afeta a relação intergeracional.
Desde a Revolução Industrial e Energética, que teve início no final do século XVIII, as gerações passadas, no longo prazo, tiveram sucesso em promover a transição demográfica (redução das taxas de mortalidade, aumento da esperança de vida e redução das taxas de natalidade), promover a transição urbana (passagem de uma economia rural e agrária para uma economia urbano-industrial e de serviços) e melhorar os níveis de consumo e bem-estar da população mundial. A despeito das desigualdades, a herança civilizacional foi positiva nos últimos 250 anos. Porém, a herança ambiental foi negativa, pois o aquecimento global e perda de biodiversidade podem gerar um colapso ecológico sistêmico, afetando principalmente a novas gerações e as gerações que ainda nem nasceram.
O enriquecimento humano se deu às custas do empobrecimento da natureza e as novas gerações estão percebendo que este caminho é insustentável. Grande defensor do crescimento econômico, o famoso economista John Maynard Keynes (que não teve filhos) dizia: “no longo prazo todos estaremos mortos”. Traduzindo para a situação atual, as gerações mais velhas estarão mortas antes do cenário de colapso ambiental que ajudaram a construir. O drama será vivido pelas jovens gerações atuais e pelas gerações que ainda vão nascer.
Segundo a pesquisa global – Hickman e Marks (The Lancet, 07/09/2021) – realizada com jovens de Brasil, Austrália, EUA, Reino Unido, Índia, Nigéria, Filipinas, Finlândia, Portugal e França:
75% disseram que o futuro é assustador;
65% disseram que seus governos estão fracassando junto aos jovens no combate ao aquecimento global;
83% disseram que as pessoas não cuidam bem do planeta;
55% disseram que terão menos oportunidades do que seus pais tiveram;
39% disseram não ter certeza de que querem ter filhos.
Segundo reportagem da BBC (14/09/2021), os dados coletados no Brasil mostram que os jovens brasileiros têm um nível de ansiedade em relação ao futuro climático no planeta acima do nível mundial (que já é bastante alto). A maioria dos jovens entrevistados no Brasil sentem que o governo está falhando com eles (79%). A maior parte dos jovens brasileiros ouvidos (92%) também acredita que a humanidade falhou em tomar conta do planeta e acham que o futuro é assustador (86%). Quase metade (48%) dos brasileiros entrevistados disseram que as mudanças climáticas os fazem ficar hesitantes em relação a ter filhos. Essa proporção ficou bem acima da média mundial (39%).
Relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), no dia 20 de agosto de 2021, mostra que metade das crianças e adolescentes do mundo (1 bilhão de pessoas) está extremamente exposta aos impactos da crise climática e as novas gerações serão, proporcionalmente, as mais penalizadas pelas mudanças climáticas.
Utilizando dados geográficos de alta resolução, o relatório da Unicef apresenta novas evidências globais de quantas crianças estão atualmente expostas a uma variedade de perigos climáticos e ambientais, choques e estresses. Por exemplo, o relatório lista os eventos de início repentino e moderadamente repentino que vão afetar as jovens gerações:
820 milhões de crianças (mais de um terço do total de crianças no mundo) estão atualmente expostas às ondas de calor. É provável que a situação se agrave, na medida em que a temperatura média da Terra aumenta e padrões climáticos se tornam mais erráticos. O ano de 2020 ficou empatado como o ano mais quente já registrado.
400 milhões de crianças (aproximadamente 1 a cada 6 crianças no mundo) estão atualmente expostas aos ciclones. É provável que a situação se agrave, na medida em que ciclones de alta intensidade (isto é, Categorias 4 e 5) aumentaram em frequência, aumentando a intensidade de precipitações, e que faz com que os padrões de ciclone mudem.
330 milhões de crianças (1 a cada 7 crianças no mundo) estão atualmente altamente expostas à inundações fluviais. É provável que a situação se agrave, na medida em que as geleiras derretem e as precipitações aumentam, devido ao alto teor de água na atmosfera, que é resultado de maiores temperaturas médias.
240 milhões de crianças (1 a cada 10 crianças no mundo) estão atualmente altamente expostas à inundações costeiras. É provável que a situação se agrave, ao passo que os níveis do mar continuam aumentando, com os efeitos consideravelmente ampliados quando combinados com tempestades.
Ou seja, a maioria dos adultos de hoje não estarão vivos em 2100 e nem vão vivenciar os maiores danos da emergência do clima.
O impacto da crise climática e ambiental atingirá essencialmente as crianças e adolescentes atuais mas, principalmente, as novas gerações que ainda vão nascer.
Segundo as projeções populacionais da Divisão de População da ONU (feitas em 2019) está previsto o nascimento de 10,2 bilhões de bebês entre 2025 e 2100. Lastimavelmente, cada nova criancinha receberá um boleto na maternidade com o valor da dívida ambiental a ser paga com “sangue, suor e lágrimas” na guerra contra o aquecimento global e a perda de biodiversidade.
Desta forma, os jovens estão indo para as ruas para protestar contra a herança maldita e para lutar contra a possibilidade de um colapso ecológico. Por isto existe a convocação da Greve climática global para o dia 24 de setembro de 2021.
O futuro está nas mãos da juventude atual que vai decidir quantos filhos quer ter enquanto for para as ruas lutar contra o colapso ecológico sistêmico.
José Eustáquio Diniz Alves – Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. A emergência climática, as novas gerações e a Greve Climática Global, Ecodebate, 06/09/2021 https://www.ecodebate.com.br/2021/09/06/a-emergencia-climatica-as-novas-geracoes-e-a-greve-climatica-global/
UNICEF. A crise climática é uma crise de direitos das crianças. Introduzindo o Index de risco climático para as crianças, 20/08/2021 https://www.unicef.org/sites/default/files/2021-08/%5BPortuguese%5D%20CCRI%20Executive%20Summary_0.pdf
Caroline Hickman, Elizabeth Marks. Young People’s Voices on Climate Anxiety, Government Betrayal and Moral Injury: A Global Phenomenon, The Lancet, 07/09/2021
https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3918955&download=yes
BBC. Mudança climática afeta decisão de jovens brasileiros sobre ter filho, diz pesquisa internacional, 14/09/2021 https://www.bbc.com/portuguese/geral-58553995
Greve climática global – 24 de setembro de 2021 https://fridaysforfuture.org/september24/
Greve climática global em 24 de setembro de 2021 https://www.klima-streik.org/sprachen/portugues
Fonte: EcoDebate, ISSN 2446-9394, 22/09/2021.