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Difícil explicar sentimentos… Ainda mais quando se trata da saudade, uma sensação atribuída a tantas situações completamente distintas e muitas vezes antagônicas. Você pode estar feliz e dar o nome de saudade e essa mesma saudade pode te levar ao fundo do poço, tamanha a tristeza. Um amor correspondido, porém ausente, gera saudades, um sentimento gostoso… Já o amor não correspondido traz uma saudade sofrida, que dói… No primeiro caso pode-se preencher o vazio da saudade com a lembrança, com a expectativa do encontro, com a construção de um porvir. No segundo caso, no entanto, a saudade é um vazio que não se preenche, nem mesmo com a lembrança…
O mesmo acontece quando sentimos saudades de pessoas que amamos e se vão para sempre… O tempo ameniza, mas nada preenche totalmente o vazio. Reorganizamos nossa escala de prioridades e a saudade vai perdendo lugar, vai diminuindo o seu grau de importância, mas o vazio continua lá. Vai doendo cada dia menos até que um dia nem dói mais, mas a saudade continua lá…
Além da saudade das pessoas, tem a saudade das sensações, de lugares, de épocas passadas… Você sente aquele cheiro familiar que te remete à infância, come um bolo igualzinho ao que sua avó fazia lá em Minas Gerais e sente vontade de estar lá, assiste a uma cena de um filme e o abraço dado pelos personagens te lembra aquele amigo que você não vê há anos e que abraçava daquele jeito…
E quando você sente saudades do que não viveu? É outro tipo de saudade, até um pouco maluca, totalmente nostálgica, mas que existe… Saudade de ter vivido nos anos dourados, ido a bailes e vivenciado amores inocentes… Saudades de ter vivido nos tempos da “garota carioca”, num Rio de Janeiro sem tantos assaltos, tiros perdidos e violência… Saudades de ter ido ao cinema quando ainda era um grande acontecimento social e quem sabe até ter rido e se emocionado com um filme mudo de Chaplin.
Na verdade, sentimos saudades de quem fomos, de toda alegria que sentimos com aquela pessoa ou naquele momento ou naquele lugar. Sentimos saudades do que aquelas sensações apreendidas e aprendidas nos engrandeceram, nos deram prazer… Sentimos saudades até do que consideramos que poderia ter sido bom e nos tornado felizes, embora não tenha sido realizado. Acho que por isso não temos saudades alguma do que foi ruim, a mente e o coração rapidamente se encarregam de apagar de nossa vida, de nossa memória.
Saudade não é tão ruim assim… Hoje, por exemplo, sinto saudades das conversas que tinha com a minha amiga de sorriso gigante, do quanto me faziam bem, e de tomar caipirinha em xícaras, no Natal, para minha avó não perceber que minha tia e eu estávamos bebendo… E entre mil coisas que poderia citar, do colo das duas… Muita saudade! Sou melhor porque tive o prazer de desfrutar da companhia delas… É, saudade não é tão ruim assim…
Anoushe Duarte Silveiraé brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.
No próximo sábado, dia 28 de janeiro em Itapemirim, teremos uma aula show de gastronomia com o Chefe de Cozinha Gilson Surrage Professor de gastronomia da UVV.
O evento irá acontecer, a partir das 17h, na Praça de Itaoca.
Haverá uma degustação para todos os presentes. Aproveite e conheça um pouco mais das tradições e riquesas gastronômicas da nossa região, que é riquíssima em frutos do mar.
Essa é uma ação de promoção do nosso VI Festival de Frutos do Mar que acontece anualmente na semana santa na praia de Itaipava.
Fonte: Secretaria Municipal de Turismo de Itapemirim.
Outro dia desses estava ouvindo uma música da cantora Maria Rita que me chamou a atenção: “…Batuque o coração para me ver chegar…” Fiquei refletindo sobre o que realmente faz batucar nosso coração e sobre como é bom quando você faz um coração batucar.
Coração batucando nos remete logo ao amor entre homem e mulher, ou melhor, à paixão. Vem aquela ansiedade gostosa que te faz brigar com o tempo para que ele passe rápido e logo você possa encontrar o ser amado. E depois, quando já estão juntos, brigar novamente com o tempo porque você quer que ele passe va-ga-ro-sa-men-te e só de pirraça ele resolve voar… E o coração batuca enquanto o corpo mal responde, você fica lá, inerte, com um sorriso congelado no rosto. Como dizem os belos versos de Mario Quintana, “… E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita. A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil. Aonde viessem pousar os passarinhos.”
Mas coração não batuca só na paixão entre homem e mulher, afinal, é a paixão que nos move, que faz cada despertar diferente e nos salva da apatia. Coração batuca em todos os tipos de paixão. Por exemplo, na paixão pela arte: assistimos a uma peça ou a um filme que nos toca e está lá o coração a batucar; lemos um livro que muda nossa vida ou um texto que gostaríamos de ter escrito e está lá novamente o coração a batucar; ouvimos uma bela composição musical que provoca uma verdadeira sinfonia no coração ou ainda apreciamos a pintura, que nos permite tentar traduzir traços coloridos em emoção e isso provoca batuques de tantã…
Coração também batuca quando nos oferecem desafios. Diante de um novo projeto, de uma palestra brilhante com novas perspectivas ou de um trabalho desafiador está lá o coração a batucar…O advogado redigiu uma peça brilhante, o jornalista deu um furo, o médico salvou uma vida e o coração está lá a batucar, como em uma escola de samba!
São tantos os sentimentos que fazem batucar o coração… Um simples olhar na hora certa, o toque da mão pequenina de um filho, uma palavra amiga, um abraço apertado, a lambida agradecida do seu cão… Esses pequenos momentos é que constroem a tão almejada felicidade. Por isso penso ser importante fazer boas escolhas, dentro do que nos cabe escolher, é claro! E incluir a paixão na maioria dessas escolhas talvez seja o segredo para começar um bom dia, que somado a outros vai tornar o ano melhor e que somado a muitos outros vai nos proporcionar uma vida feliz.
Afinal, vida feliz é isso: momentos de coração a batucar!
E citando Maria Rita, não poderia deixar de lembrar e prestar a minha homenagem a Elis Regina no aniversário de 30 anos de sua morte.
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.

A revista Cidadania & Meio Ambiente, ISSN 2177-630X, foi conceituada como um veículo de comunicação para atuar como uma ferramenta de incentivo ao conhecimento e à reflexão, através de matérias, artigos de opinião, artigos técnicos e entrevistas, sempre discutindo cidadania e meio ambiente, de forma transversal e analítica. Sua distribuição é integralmente gratuita, visando contribuir para com a socialização da informação socioambiental.
A revista também está disponível, no formato do Acrobat Reader, para livre acesso ou download gratuito. Caso queira fazer o download, clique, com o botão direito do mouse, em “Salvar como”.

Capa da Revista Cidadania & Meio Ambiente n° 36
¤ Para o acessar a Edição n° 36, com 2,23 Mb, clique AQUI .
Quantas vezes a vida nos dá a chance de recomeçar? A cada nascer do sol, a cada findar do dia…A cada segundo que nos sentimos fortes e temos a coragem de enfrentá-la. Acordar, dormir, respirar e conseguir dizer para ela: hoje eu posso mais. Porque como diz Guimarães Rosa: o que ela (a vida) quer da gente é coragem.
E para recomeçar é preciso mesmo muita coragem, seja lá o que for… Recomeçar a trabalhar, a amar, a caminhar, a viver uma vida a dois, a viver sem o “dois” da sua vida, a viver sem amadas presenças, a viver com difíceis lembranças… Enfim, há recomeços mais difíceis do que outros, mas todos exigem coragem.
Tendo coragem a vida nos surpreende, um belo dia você se depara recebendo uma promoção no novo trabalho, encontrando um novo amor, conseguindo falar sorrindo sobre a pessoa que partiu e se esquecendo da difícil lembrança, mas sem recomeçar nada disso é possível.
Por isso é preciso exercitar o recomeçar, a cada segundo, mais e mais… Porque cada recomeço é um começo mais perfeito que o anterior. Ainda que não seja melhor, é mais perfeito porque já houve uma tentativa e coragem é acima de tudo tentar.
Tente recomeçar a sorrir depois de uma derrota, a abraçar depois de um desentendimento, a perdoar depois de um tropeço, porque, ali mais adiante, o tropeço será seu e muita gente vai recomeçar a entender os seus motivos, a esquecer as suas fraquezas, de novo e de novo e de novo.
Sempre há tempo de recomeçar, porque a gente só deixa de recomeçar quando termina a vida. E para os que acreditam em outras vidas, nem assim deixamos de recomeçar.
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.
Para encerrar, aqui, minha participação nesse tipo de conversa (rsrs). , São efetivas as contradições entre o espaço público e as intimidades, emoções, mesmo que históricas. Esse “espaço público” virtual (web) é ainda mais difícil de ser trabalhado. Por exemplo, como “presença”, somos relativamente poucos, mas o grupo é enorme. A postura aguerrida é que conta. A “thurma” do BBMP que o diga. Como espaço público é a mediação entre todos os presentes, qual será a mediação a ser feita, aqui?
Já retirei dois posts que fiz por aqui, porque, depois, achei inadequados, para mim. Havia feito sob a influência de uma intimidade que tenho no contato “real” com amigos, mas não tenho com o espaço público, por ser público e por características pessoais.
Joelson, por exemplo, tem um estilo público que não tenho competência para exercitar, mas admiro. A capacidade de tratar emoções específicas e visões pessoais, em público. Isso vem dos repentistas xique-xiquenses, consolidado na urbanidade aguerrida e cheia de autoridade dos “Poetas na Praça”.
Ao final de tarde – ainda na ditadura – o pôr do sol e os que voltavam do trabalho para casa, pelo centro de Salvador, na Praça da Piedade – histórico espaço onde os líderes da Revolução dos Alfaiates foram expostos, depois de esquartejados -, assistiam uma louvação à liberdade. Mesmo sem explicitar, o evento era um desejo da liberdade futura e um balsamo a todos os militantes daquele presente. Pelo menos é assim que via e vejo. Joelson era um dos principais comandantes daquela empreitada poética, junto com Antônio Short, Zeca Magalhães, Geraldo Maia, Ametista Nunes, Eduardo Teles (in memorian), Pedro Cézar, Agenor Campos (in memorian) e Gilberto Costa.
A coisa foi tão séria que, na Assembléia Legislativa, sob a liderança do Joelson foi organizado a comemoração dos 10 anos do Grupo, em 1989, inclusive um material gráfico impresso com o poema do Joelson, “PIEDADE POESIA”, escolhido democraticamente, entre os poetas, para a comemoração. Foi um acontecimento, à época, na Agenda Cultural soteropolitana.
Frente a tudo isso e sob o comando da emoção, eu ficava posicionado, na “PIEDADE POESIA”, na segunda ou terceira roda de pessoas, que iam se juntando para ouvir aqueles poetas. (Ita, parece ter o estilo mais próximo disso). Alguns até achavam aqueles poetas “malucos”, mas eram os malucos consagrados por Raul, “malucos beleza”. Além disso, a empreitada político-cultural possuía um formato que a população tinha total identidade .
Reproduzia a ação dos vendedores de ervas nas feiras e praças públicas. Assim como nos círculos dos vendedores de ervas, xaropes, preparados e porções diversas, os poetas da praça repassavam as soluções para tudo: mal de amor; falta de liberdade; combate à escuridão; mediocridade e tinham, até mesmo, “remédio” para quem tivesse problemas de alma com “espinhela caída” e “dor de facão”, de amor não correspondido.
Os “médicos” e as receitas iam de Gregório de Matos a Pedro Tierra (Hamilton Pereira), Dom Pedro Casaldáliga e composições próprias e de poetas locais.
Vejam o estilo das poesias de Pedro Tierra, que eram ditas.
“[...]
Porque sou o poeta
dos mortos assassinados,
dos eletrocutados, dos “suicidas”,
dos “enforcados” e “atropelados”,
dos que “tentaram fugir”,
dos enlouquecidos.
[...]
meu ofício sobre a terra
é ressuscitar os mortos
e ap ontar a cara dos assassinos. [...]“
(Poema-prólogo, Pedro Tierra)
Fico imaginando como as pessoas que passavam e/ou paravam se relacionavam, com esse tipo de texto. O que da nossa dor era incorporada por elas.
Bem, a síntese é: o fato é que, em público, só me responsabilizo pelos meus textos racionais. E isso, devo dizer, não por discordâncias com quem faz diferente, mas por estilo, jeito e limitações.
Sobre diferença de estilo, já mandei, para algumas pessoas, a mensagem abaixo, falando da unidade e diversidade entre Caetano e João Gilberto, que explica a possibilidade de existir identidades profundas entre estilos diferentes: a essência e a poesia da vida é que contam.
Segue abaixo, a historinha de Caetano e João Gilberto:
O Caetano Veloso voltou do exílio em 1972. Nos shows, se apresentava rebolando e vestindo umas batinhas, calças folgadas e outras mumunhas mais, enrolando o cabelo, displicentemente etc. Coisas que chamavam mais a atenção naquela época, que hoje. Entre as opiniões que Caetano mantinha, estava a profunda admiração por João Gilberto, como uma das maiores expressões da cultura brasileira.
Em um determinado momento, em entrevista, um jornalista perguntou a João, como ele explicava que o Caetano, com aquele perfil e estilo, se identificava tanto com ele, tão formal e que só cantava de paletó e gravata, sentado em um banquinho. Inteiramente sisudo.
A resposta do juazeirense foi: “Vc nunca percebeu que tenho todo aquele rebolado, leveza e simplicidade na minha voz? Essa é a identidade.” (citado livremente).
As, identidades verdadeiras baseiam-se em aspectos mais profundos, não em formas ou estilos, por mais legítimos que sejam. Joelson é dono de um estilo inconfundível e, em minha opinião, indispensável ao espaço público, para acabar com a mesmice. Eu, quando crescer, quero ser assim.
Abraço
Luiz Nova
Um amigo muito querido me deu uma sugestão: lembrar o poeta Waly Salomão. Ele foi Secretário Nacional do Livro do Ministério da Cultura e tomou posse cantando, sugerindo uma gestão promissora pautada pelo sonho, pela catimba e pela bandeira da imaginação no poder. Infelizmente já está no andar de cima… Artista completo (compositor, diretor musical, performer, artista plástico, editor, videomaker, ator e, acima de tudo, poeta) defendia que “o poema deve ser uma festa do intelecto”. Perguntava e se respondia: “O que é que você quer ser quando crescer? Poeta polifônico!.” Ou seja, sair do verso melódico, aquele poema composto por uma ideia que se sucede linha a linha do início ao fim, para chegar ao verso polifônico, uma sucessão de ideias que se sobrepõem, às vezes se opõem, sem a necessidade de chegar à conclusão alguma. Versos cheios de vozes, livres…
A sugestão desse meu amigo veio a calhar e diria até que foi um sopro de inspiração, pois há alguns dias eu vinha pensando em escrever algo sobre intensidade. Na verdade, sobre a benção de poder desfrutar a arte de pessoas intensas, muitas vezes taxadas de loucas… Pessoas desconfiadas e estridentes, que buscam algo fora da linearidade da vida, escapes, raciocínios desconectados, como nos versos de Waly.
Como é bom ouvir uma música, dançar e repetir seus versos, como se ela fosse feita para ti. Obrigada Chico Buarque, Vinícius, Caetano e tantos outros por emprestarem um pouco de sua insanidade e intensidade. Como é bom ir ao cinema assistir ao filme “A Suprema felicidade” de Arnaldo Jabor e durante a projeção ouvir o personagem de Marcos Nanini, um show de interpretação, dizer “…ninguém é feliz, com sorte a gente é alegre. A vida gosta de quem gosta dela”. Eu gostaria de ter escrito isso… bateu uma pontinha de inveja.
E intensidade e espontaneidade não moram só nas mentes de seres brilhantes como essas que citei, a gente encontra direto ao nosso lado… Uma amiga baiana tira o miolo do pão para esfregar naquela gordurinha que fica no fundo da panela após fritarmos um bife e come gemendo… Outro amigo recita poesias em plena madrugada para uma total estranha, porque viu brilho em seus olhos… Mais um que posso citar sai durante um temporal conclamando os vizinhos a participar do espetáculo de ter os pés no chão, o rosto molhado e a alma lavada. Há os que param para observar a lua da laje do apartamento de pijamas e quem sabe retirar o pijama… E os que cantam História de Uma Gata, abraçados, ao final de uma samba, para celebrar a amizade…
Nesta vida há espaço pra tudo, é claro que exige muita seriedade, mas nem sempre precisa ser linear, monofônica… Afinal, não só o poema deve ser uma “festa do intelecto” — a vida, sempre que possível também !!!!
Um pouquinho de Waly Salomão:
“O que menos quero pro meu dia
polidez, boas maneiras.
Por certo, um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás…)”
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.

Hoje encontrei uma frase perdida em algum canto da internet. Aparentemente perdida, porque na realidade a frase tinha destino certo: como todas, em distintos tempos de nossas vidas. A frase é do poeta que amo, Pablo Neruda, e entre tantos destinos estava incluído o meu. Ei-la:”Perdoe com generosidade aqueles que não te amam”.
Não interpretei a mensagem como uma sugestão de sair por aí dando a cara a tapa. Acho que a ideia é sugerir que mais fácil é armar-se de gentileza ou ao menos de um respeito mínimo ao lidarmos com nossos iguais que, como nós, têm dias ruins, são cheios de falhas e têm todo o direito de não concordar com nossas atitudes e pensamentos.
A generosidade talvez esteja nisso: ainda que com a razão, não precisar humilhar para demonstrá-la, saber recuar se preciso, não ter a necessidade de se impor, porque sem precisar impor seu ponto de vista a mente fica mais aberta para acolher outros… E aceitar críticas mesmo quando vêm dos que não te amam, por que não? Muitos podem não te amar e enxergar seus defeitos até melhor do que os que te amam, ao menos com mais isenção. E muitos têm pleno direito de não te amar e vão mesmo exercitar esse direito, precisam apenas colocar em prática a tal da generosidade em questão.
Vamos torcer para nos nossos dias ruins esbarrarmos com pessoas que praticam essa generosidade instintivamente, antes mesmo de demonstrarmos a nossa falta de amor. Imagine um daqueles dias em que você sai de casa chateado por um ou mil motivos ou simplesmente sem motivos. E tudo o que você deseja é encontrar alguém para despejar a sua raiva: quer que alguém te dê uma buzinada só para você falar um palavrão bem alto; quer que alguém não te trate com a devida atenção só para se sentir injustiçada; quer que o teu namorado não te ligue para poder reclamar… E aí, do nada, surge aquele sorriso iluminado e te encontra, te abraça, te contamina, te desarma…
Acho que esses sorrisos gratuitos são uma boa forma de perdoar com generosidade até mesmo aquele que ainda é só detentor de um ataque em potencial. Um sorriso na hora certa pode até abortar o ataque. Quando um sorriso muito grande te encontra cabisbaixo por aí, ele tem poder energizante. Pode remover nós de estômago, secar lágrimas, fechar feridas internas, às vezes até aquelas bem internas como as do coração. Pode acabar com seus argumentos, para quê argumentar diante de um sorriso?
As mais poderosas armas são mesmo nossos gestos. Que tal distribuir generosos sorrisos e quem sabe um deles, perdido, assim como a frase de Neruda, atinge um alvo certo?
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.
“Esquecer é uma necessidade”. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito”. Quem escreveu isso foi Machado de Assis. E quando li, logo pensei: faz sentido. A vida é uma sucessão de reescrituras, releituras, às vezes melhores que as anteriores, outras vezes não. Mas concordo com Machado de Assis, um novo caso só se escreve depois de apagado o anterior. Isso, numa tentativa de se escrever direito, legível. Porque é claro que podemos escrever em cima. Mas fica algo embolado, ilegível… E assim é a vida. Se a gente não encerra um capítulo, apaga ele da lousa, o próximo vem encavalado, com letras emboladas e construir uma narrativa torna-se muito mais difícil.
No amor, por exemplo, impossível começar um novo caso sem apagar o caso escrito. Fica realmente tudo embolado se houver uma tentativa de sobreposição. Na moda, sobrepor é lindo, uma cor por cima da outra, um vestido por cima de uma blusa, uma imagem por cima da outra. Mas no amor, assim como nos traços da lousa, não: é preciso apagar o amor antigo para se escrever uma nova história. Muitas vezes, numa tentativa desesperada de esquecer logo o amor antigo, a gente tenta colocar imediatamente outra pessoa no lugar, mas parece tão eficaz quanto apagar as palavras da lousa com a mão. Sabe quando a gente não usa o apagador e mete logo a mão para apagar o texto? Pois é, fica aquela mancha branca e quando a gente escreve por cima não se consegue ler nem o que estava escrito antes e nem o que se formou.
Então não há como não concordar com Machado de Assis: no amor, e em muitas ocasiões da vida, esquecer é uma necessidade. Esquecer um amor quando é imperativo construir outro; esquecer mágoas para manter amizades, relações familiares, colegas de trabalho; esquecer desavenças para escrever novos discursos. A gente pode até pegar um giz rosa ou azul para tentar colorir um pouco o novo caso escrito, mas sem apagar o anterior, não adianta, fica mal escrito.
Nessa de esquecer o amor antigo, me lembrei de uma amiga que, após uma sucessão de casos mal sucedidos, me ligou chorando e dizendo que não aguentava mais jogar escovas de dentes fora. Cada namorado que entrava na sua vida e na sua casa, aos poucos, para poupar trabalho, deixava logo a escova de dentes. A entrada da escova de dentes é linda: mais intimidade, mas convivência, mais amor. Porém, o ritual de jogá-la fora, ao término de mais um namoro, tenho que concordar: é terrível. É o começo da tentativa de esquecimento… Fazer o quê: ficar olhando para escovas de dentes?
Portanto, mais uma vez, digo que tenho de concordar com Machado de Assis. A vida é uma lousa e porque não dizer uma sucessão de escovas de dentes jogadas fora. Enquanto a gente não souber colocar no lixo tudo que não nos serve nem mesmo como lição, vamos continuar escrevendo casos embolados, mal resolvidos e colecionando escovas com cerdas desgastadas e duras, totalmente inúteis, que só ocupam o espaço de algo que poderia vir a ser construtivo para a nossa vida.
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.