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Número de brasileiros fora da força de trabalho chega a 65,6 milhões


De acordo com o IBGE, 60% da população fora da força de trabalho tem potencial para voltar, mas está “em desalento”Roni Rigon / Agencia RBS.

No segundo trimestre, o número de pessoas que não trabalham ou desistiram de procurar emprego cresceu 1,2% e atingiu um nível recorde: 65,6 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais estão fora de força de trabalho.

Trata-se do nível mais alto da série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), iniciada em 2012, informou o órgão na terça-feira (31).

As pessoas fora da força de trabalho são aquelas que têm idade para trabalhar, mas, por alguma razão, deixaram de procurar emprego.

O mais preocupante, diz Everton Carneiro, analista da RC Consultores, é que uma forte explicação para isso é o crescimento do desalento -a desistência de ir em busca de uma vaga diante da lenta retomada econômica.

Paradoxalmente, nas estatísticas, a taxa de desemprego caiu, graças ao aumento dos postos de trabalho informais.

A taxa de desemprego teve uma redução de 13% para 12,4% no segundo trimestre do ano em relação ao primeiro, somando 13 milhões de desempregados.

Em relação ao mesmo trimestre do ano passado, os números também não animam: ao mesmo tempo em que 1 milhão de pessoas passaram a ter alguma ocupação no período, um grupo maior, de 1,2 milhão de pessoas, saiu da força de trabalho.

Outro ponto que chama a atenção é que esse aumento de pessoas ocupadas nos últimos doze meses é mais do que inteiramente explicado pelo avanço do emprego informal e também, em menor grau, do emprego público, diz o economista Fernando Montero, da consultoria Tullett Prebon, em relatório.

No mercado informal, diz ele, a soma dos trabalhadores do setor privado sem carteira assinada, de empregadores e trabalhadores por conta própria sem CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica), de trabalhadores familiares e de trabalhadores domésticos sem carteira atinge 821 mil ocupados no período. Já o número de empregados no setor público subiu 310 mil.

Em sentido oposto, os trabalhadores e domésticos privados com carteira mais os empregadores e conta própria com CNPJ caíram 130 mil na comparação com o segundo trimestre de 2017.

O IBGE divulgou pela primeira vez o nível da formalização dos grupos de trabalhadores por conta própria e empregadores, que são indivíduos que têm pelo menos um funcionário

Como já era esperado, 80% dos conta própria não têm CNPJ. Entre os empregadores, a relação se inverte: 80% não tinham CNPJ, em linha com o fato de que os trabalhadores por conta própria costumam ser pequenos empreendedores que decidiram abrir seus negócios após perder empregos formais.

Chama a atenção, no entanto, que o número dos empregadores precários vem em alta praticamente contínua desde 2015, atingindo o recorde de 911 mil.

Segundo o IBGE, dos 91,2 milhões de ocupados, ao menos 40,6% (ou 37 milhões) estão no mercado informal. Já o número de empregados no setor privado com carteira de trabalho assinada atingiu o menor nível da série histórica iniciada em 2012, ao registrar contingente de 32,8 milhões de pessoas.

“Aumentou a oferta de trabalho, mas a qualidade do emprego está menor”, diz Carneiro, da RC Consultores.

Segundo Carneiro, outro sinal de piora da qualidade no trabalho é que, a despeito da alta no contingente de ocupados, a renda real do trabalhador (descontada a inflação) se mantém estável.

Em relação a igual período de 2017, esse rendimento cresceu 1,1%. Na prática, a renda do trabalhador subiu R$ 24 no intervalo de um ano. “É aumento de vagas que não gera melhora no poder de compra, o que retarda a retomada econômica”, diz Carneiro.

Em relação a igual período de 2017, esse rendimento cresceu 1,1%. Na prática, a renda do trabalhador subiu R$ 24 no intervalo de um ano. “É aumento de vagas que não gera melhora no poder de compra, o que retarda a retomada econômica”, diz Carneiro.

Mesmo com crise fiscal, setor público amplia contratações

Enquanto o mercado de trabalho brasileiro tem cada vez mais trabalhadores informais de um lado e, de outro, pessoas desistindo de procurar vaga, o setor público amplia as contratações e bate recorde de empregados num momento de severa crise fiscal.

Entre abril e junho, 11,6 milhões de pessoas estavam empregadas no setor público –o maior nível da série histórica, iniciada em 2012, segundo dados do IBGE.

No segundo trimestre, 392 mil pessoas foram contratadas pelo setor público. Deste total, 73% ou 289 mil vagas não tinham carteira assinada, em modelos de contratação que podem ser por meio de cargos temporários ou comissionados.

Fernando Montero, economista da consultoria Tullett Prebon, diz que o avanço das contratações públicas, mais associado a administrações regionais, ocorre desde a virada de 2017, o que indica que não pode ser explicado apenas pelo ciclo eleitoral.

Cosmo Donato, economista da LCA Consultores, diz que é possível que sejam contratações de funcionários por contrato temporário, em especial nos setores da saúde e da educação, justamente porque as prefeituras não tem verba para contratar via concurso.

Na avaliação do próprio IBGE, a alta é sazonal.

“É comum as prefeituras dispensarem trabalhadores no fim do ano e recontratá-los no início do ano seguinte”, afirmou o coordenador de Trabalho e Renda do IBGE, Cimar Azeredo. Como o país tem mais de 5.000 municípios, o movimento é grande.

Fonte: BEM PARANÁ – Folhapress, 31/07/2018.