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O mundo vai descartar 70% mais lixo e resíduo até 2050, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


A dependência do consumo transforma a cidadania em doença consumista

A insana e insone máquina de acumulação de riqueza e capital, que funciona na base do modelo “Extrai-Produz-Descarta”, deve aumentar o volume global de descarte de lixo e de resíduos sólidos em cerca de 70% até 2050, quando se alcançará 3,4 bilhões de toneladas, frente a 2,01 bilhões de 2016, segundo o Banco Mundial.

Evidentemente, a vertiginosa proliferação de lixo e resíduos no mundo é uma ameaça adicional para a saúde da população humana, da população não humana e do meio ambiente, além de agravar as mudanças climáticas, segundo o relatório “What A Waste 2.0 : A Global Snapshot on Solid Waste Management to 2050”.

Os países desenvolvidos (economias avançadas) que representem somente 16% da população mundial, descartam mais de um terço (34%) dos resíduos do planeta, mas o leste asiático (com grande presença da China) e a região do Pacífico não estão muito distantes e são responsáveis por quase um quarto (23%) do total de resíduos.

As demais regiões do mundo respondem por mais de 40% dos resíduos e aumentam o descarte a um ritmo mais elevado do que os países ricos. Por exemplo, para 2050, estima-se que a África subsaariana triplicará o nível de seus dejetos e o sudeste asiático o duplicará.

O Banco Mundial está preocupado com a má gestão do plástico, que é particularmente perigoso pois pode afetar os ecossistemas durante centenas ou até milhares de anos. Em 2016, o mundo gerou 242 milhões de toneladas de dejetos de plástico, 12% do total de dejetos sólidos. Enquanto os países ricos reciclam cerca de um terço de seus dejetos, somente 4% é reciclado nos países pobres.

Segundo a Fundação Ellen MacArthur (em parceria com a consultoria McKinsey) a proporção entre as toneladas de plástico e as de peixe era de um para cinco. Caso não ocorram mudanças na maneira de descarte do lixo, em 2025, a proporção será de um para três. E o mais drástico, em 2050, a quantidade de lixo plástico nos oceanos deverá superar a de peixes.

Uma pesquisa da Universidade de Reading, no Reino Unido, publicada na Biology Letters, mostrou que os microplásticos – fragmentos de polímeros inferiores a 5 mm – já não são mais um problema apenas para as criaturas que vivem nos oceanos atulhados por mais de 8 milhões de toneladas de plásticos por ano. Agora eles estão invadindo as cadeias alimentares de outros animais terrestres e povoando áreas de terra firme anteriormente consideradas intocadas. Animais como os mosquitos ou as libélulas podem ingerir os microplásticos e transportá-los. Depois, uma vez que os insetos forem comidos por outros animais, os microplásticos entram totalmente na cadeia alimentar de outras espécies, “democratizando” o consumo de resíduos plásticos entre os seres vivos da Terra.

Desta forma, considerando o quadro mais amplo: é impossível manter o modelo “Extrai-Produz-Descarta” sem correr o risco de um colapso ambiental. Porém, existem pensadores utópicos ou cornucopianos que consideram ser possível manter o modelo de crescimento do consumo, mas desmaterializando os bens físico, quer seja pelo crescimento da sociedade da informação e do conhecimento ou pelo desacoplamento (decoupling) entre bens de consumo e recursos naturais.

A ideia do desacoplamento é tema central do Painel Internacional de Recursos da ONU (UNEP, 2015), que sonha em dissociar os efeitos do crescimento econômico do uso dos recursos naturais e dos seus impactos ambientais. Todavia a realidade tem mostrado que a degradação do patrimônio natural continua concomitantemente ao crescimento da poluição em todas as suas formas. O próprio Painel de Recursos da ONU reconhece que o uso global per capita de materiais (biomassa, combustíveis fosseis, minerais metálicos e minerais não metálicos) continua crescendo, pois era de seis toneladas, em 1970, passou para oito toneladas, em 2000 e chegou a dez toneladas, em 2010. Houve portanto aumento absoluto no uso e abuso dos materiais arrancados das entranhas da Terra.

Mas também houve crescimento relativo, pois a quantidade de material (kg) para produzir uma unidade de PIB (US$) passou de 1,2 kg, em 2000 para 1,4 kg, em 2010. Além disto, o nível de reciclagem é muito baixo e o montante de luxo e lixo é muito alto. Vale a pena ler os textos de Vaclav Smil sobre as ilusões do desacoplamento.

Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento (Ron Patterson, apud Alves 2014). Cresceram as áreas ecúmenas e diminuíram as áreas anecúmenas. O domínio do egoísmo humano sobre o Planeta (Antropoceno) está provocando a sexta extinção em massa das espécies e acelerando a degradação dos ecossistemas.

Portanto, tem sido uma ilusão conciliar os imperativos gêmeos da sustentabilidade e do desenvolvimento. A ideia do “desenvolvimento sustentável” tem sido apenas um bordão cada vez mais difícil de ser vendido aos cidadãos (transformados em consumidores) do mundo. O desenvolvimento sustentável virou uma contradição em termos e o tripé da sustentabilidade virou um trilema.

A dependência do consumo transforma a cidadania em doença consumista. Mas o CONSUMICÍDIO pode destruir todo o processo civilizatório que ocorre deste o surgimento do homo sapiens até a sua transformação em homo economicus.

Ou se muda o estilo de vida da população mundial ou haverá um grande desastre ambiental e a vida na Terra será afetada pela montanha de lixo e resíduo sólido que cresce em ritmo acelerado como mostrou o próprio Banco Mundial.

Referência:
WORLD BANK. What A Waste 2.0 : A Global Snapshot on Solid Waste Management to 2050, 09/2018
https://openknowledge.worldbank.org/handle/10986/30317

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: [email protected]

Fonte: EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/10/2018.

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