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Brasil: quatro décadas de baixo crescimento econômico, sendo duas décadas perdidas, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


O Brasil apresentou um crescimento do PIB mais rápido do que a média mundial na maior parte do século XX. Entre 1950 e 1980 o PIB brasileiro cresceu 7,1% ao ano, quase o dobro do ritmo do PIB global. Mas a realidade mudou nas últimas quatro décadas e o Brasil passou a crescer menos do que a média mundial.

O gráfico acima mostra que a velocidade do crescimento do PIB brasileiro foi menor do que a velocidade do incremento global nos últimos 40 anos, sendo duas décadas perdidas. Entre 1981 e 1990, enquanto o PIB mundial cresceu 38,4%, o PIB brasileiro cresceu apenas 16,6% na década, ou 1,55% ao ano. Mas como a população cresceu 19,2% na década (1,77% aa), houve decréscimo da renda per capita. Por isto se diz que foi uma década perdida, pois o brasileiro médio ficou mais pobre no período.

Entre 1991 e 2000, o PIB mundial acumulou um crescimento de 37,6%, contra 29,3% do Brasil. O crescimento médio anual foi de 3,24% no mundo e de 2,6% no Brasil. Ou seja, os anos de 1990 foram de maior crescimento do que a década anterior no Brasil, mas também em ritmo abaixo do desempenho da economia global. A primeira década do atual século foi mais dinâmica do que as duas últimas do século passado, tendo um crescimento total de 46,7% no mundo (3,9% aa) e 43,5% no Brasil (3,7% aa). O superciclo das commodities impulsionou o crescimento na maioria dos países.

A atual década (2011-20), com base nos dados das projeções do FMI, deve apresentar um crescimento global de 43,7% (3,7% aa) e de somente 10,6% no Brasil (1% aa). Como a população brasileira deve crescer 7,5% (0,7% aa), o crescimento da renda per capita foi mínimo, caracterizando uma situação de estagnação e uma segunda década perdida. A década de 1981-90 foi a pior em termos de renda per capita e a década de 2011-20 será a pior em crescimento do PIB.

Evidentemente, não se pode esperar que o Brasil cresça mais do que a China e a Índia, que são os dois motores da economia internacional. Mas o gráfico abaixo mostra que, na atual década, o Brasil está tendo um desempenho pior do que os países em desenvolvido, mas também pior do que os países desenvolvidos. Enquanto a Ásia emergente deve crescer 93% na década e a África Subsaariana deve crescer 45,7%, o Brasil crescerá somente 10,6%, um ritmo menor do que o apresentado pelos Estados Unidos (24,5%) e a União Europeia (18,5%). Este baixo crescimento do Brasil não pode ser atribuído há uma suposta crise internacional, mas aos problemas criados internamente. Como já mostrei em outros artigos, a média do período 2011-18 (governos Dilma e Temer) foi o pior octênio do período republicano brasileiro.

Como consequência do menor crescimento econômico, o PIB brasileiro perde participação no PIB mundial. O Brasil representava 4,3% do PIB mundial em 1980 e deve ficar com menos de 2,5% do PIB mundial em 2020.

Como o Brasil está em rota submergente e se empobrecendo em termos relativos, a renda per capita brasileira cresce menos do que a renda per capita mundial. Em 1980, a renda per capita brasileira era de US$ 4,8 mil, 62% maior do que a renda per capita mundial de US$ 3 mil. Em 2014, o Brasil ainda tinha uma renda per capita (US$ 16,3 mil) superior a renda mundial (US$ 15,1 mil). Mas a partir de 2016, o cidadão brasileiro médio ficou mais pobre do que o cidadão médio global. O FMI estima uma renda per capita de US$ 17,4 mil para o Brasil e de US$ 19,6 mil para o mundo. O Brasil passou para o grupo do lado inferior da renda média mundial.

Portanto, o Brasil apresentou crescimento da renda entre 1980 e 2020, mas um crescimento menor do que a média mundial. Em termos relativos, é como andar para trás. O tamanho do Brasil está menor na comparação internacional. Isto não teria problemas caso a distribuição de renda fosse bem distribuída e houvesse progresso e solidariedade social no país. Mas o que tem passado é uma falta de perspectiva e agravamento do desemprego, da insegurança, das condições de moradia e da violência.

Provavelmente, todos as candidaturas à Presidência vão falar da necessidade de crescimento econômico. Mas o que o Brasil precisa é de um crescimento qualitativo e com melhor distribuição de renda e não simplesmente quantitativo, com base na exploração de recursos naturais e na exportação de commodities.

O velho Brasil está em crise e o novo ainda não foi gestado e está difícil de se ver uma boa alternativa à frente.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: [email protected]

Fonte: EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/05/2018.