novo

Dia Mundial da Alimentação e a campanha pela fome zero até 2030, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


De pé ó vítimas da fome; De pé famélicos da terra”
Hino da Internacional Socialista

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) lançou a campanha “Um mundo #fomezero para 2030 é possível” nas comemorações do Dia Mundial da Alimentação que ocorrem no dia 16 de outubro de 2018. A FAO busca sensibilizar a sociedade global para a importância de ações do combate à fome e ao desperdício de comida, mostrando a necessidade de desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável.

No longo prazo, a fome no mundo tem diminuido. A década com maior incidência da fome no mundo foi entre 1870 e 1880, exatamente quando foi composta a letra do hino da “A Internacional” que tem nos seus primeiros versos diz: “De pé ó vítimas da fome; De pé famélicos da terra”.

O maior número absoluto de óbitos (década de 1870) ocorreu quando 20,4 milhões de pessoas morreram por inanição no mundo, conforme pode ser visto no gráfico abaixo. Na década de 1880 o número de vítimas caiu para menos de 3 milhões, mas voltou a subir para quase 10 milhões na década de 1890. Surpreendentemente, o número de óbitos por fome diminuiu na década de 1910 – quando houve a Primeira Guerra Mundial – mesmo que o número de 2,6 milhões tenha sido ainda muito elevado.

Na década de 1920 a fome cresceu muito novamente, atingindo 16 milhões de vítimas fatais devido, principalmente, à situação da União Soviética e da China. Na década de 1940 – quando aconteceu a Segunda Guerra Mundial – a fome bateu todos os recordes do século XX, com 18,6 milhões de vítimas. Na década de 1960 a fome voltou a assustar, mas principalmente pela grande crise provocada pelos equívocos da política de “Um grande salto para frente” da China.

Superada a grande tragédia da fome na China na década de 1960, o número de vítimas da insegurança alimentar diminuiu muito no mundo nas décadas seguintes, sendo que o número de mortes atingiu o menor nível na atual década (2010-16).

O gráfico abaixo permite uma visão considerando o total populacional. A taxa de mortes por conta da fome teve o seu maior valor na década de 1870, quando atingiu 1.426 mortes para cada 100 mil habitantes no mundo. A taxa caiu na décadas seguintes, embora teve picos de cerca de 800 por 100 mil nas décadas de 1920 e 1940. A partir da década de 1970 as taxas caíram significativamente, ficando em 88 por 100 mil habitantes em 1970, 43 por 100 mil na primeira década do século XXI e em apenas 3 por 100 mil habitantes entre 2010-16.

Portanto, a insegurança alimentar no mundo tem se reduzido e a meta de “fome zero” até 2030 não é inviável. Os números da FAO indicam que existem 820 milhões de pessoas em situação de desnutrição crônica, enquanto 672 milhões de pessoas sofrem de obesidade e 1,3 bilhão de indivíduos estão acima do peso. Uma melhor distribuição dos alimentos poderia eliminar ao mesmo tempo a fome e a obesidade.

O fato é que o mundo pode ficar livre da fome. Mas para tanto não basta apenas aumentar a produção de comida. Seria preciso, principalmente, evitar a degradação dos solos, o esgotamento das fontes de água potável, a poluição dos rios e a acidificação dos oceanos. Não bata produzir alimentos, é preciso garantir a sustentabilidade e a biodiversidade.

Outra grande ameaça à meta do “fome zero” é o agravamento do aquecimento global e dos eventos climáticos extremos que vão ter um grande impacto negativo na produção de alimentos. O relatório do IPCC divulgado em outubro de 2018 mostra que o mundo tem pouquíssimo tempo para evitar uma catástrofe climática.

O mundo precisa evitar o GENOCÍDIO CLIMÁTICO, pois, no ritmo atual, a acidificação dos oceanos e o degelo dos polos, da Groenlândia e dos glaciares vão provocar a elevação do nível dos mares, erradicar os países ilhas (como Maldivas, Tuvalu, Nauru, etc.) e inundar áreas agricultáveis, além de inundar diversas áreas urbanas superpovoadas.

Portanto, o mundo precisa de fome zero e respeito ao meio ambiente, pois não basta apenas acabar com a fome humana, mas também cuidar da ecologia e da biodiversidade. Sem natureza saudável não há como ter uma vida humana saudável.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: [email protected]

Fonte: EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/10/2018.