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PIB: Países em desenvolvimento ultrapassam os países ricos por larga margem, artigo de José Eustáquio Diniz Alves


Qualquer pessoa é capaz de ficar alegre e de bom humor quando está bem vestida”
Charles Dickens

Cuidado com todas as atividades que requeiram roupas novas”
Henry Thoreau

Os dados do FMI mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) dos países em desenvolvimento (‘Sul econômico”) ultrapassou o PIB dos países desenvolvidos (“Norte econômico”), em poder de paridade de compra (ppp), desde 2008 e a diferença tem aumentado em favor dos emergentes.

O PIB mundial em 1980 era de US$ 13,2 trilhões (em ppp), sendo US$ 8,4 trilhões para os países “ricos” e US$ 4,8 trilhões para os países “pobres”. Os primeiros representavam 64% da economia global e os segundos 36%. Mas estas percentagens foram se aproximando até 2007 e se inverteram depois de 2008. No ano de 2016 o PIB dos países desenvolvidos foi de US$ 50 trilhões (representando 42% do PIB mundial) e o dos países em desenvolvimento de 70 trilhões (58% do PIB mundial). Para 2022, as estimativas do FMI apontam um PIB mundial de 168 trilhões, sendo US$ 63 trilhões (37,7% do PIB mundial) para os países ricos e US$ 105 trilhões (62,3% do PIB mundial) para os países pobres ou ditos em desenvolvimento ou emergentes.

Ou seja, os países desenvolvidos (economias avançadas) representavam quase dois terços da economia internacional em 1980 e os países em desenvolvimento (economias emergentes) representavam apenas um terço da economia internacional. Em 2016 os números foram, 42% e 58%, respectivamente. Mas em meados da próxima década a correlação de forças vai se inverter e os países em desenvolvimento devem representar dois terços da economia mundial.

Mas esse avanço das economias em desenvolvimento não foi generalizado, mas localizado em poucos países, em especial, na Ásia. Evidentemente, o grande destaque foi a China. Depois a Índia. E mesmo a Indonésia (o quarto maior país do mundo em termos populacionais) dobrou sua participação no PIB mundial. O gráfico abaixo mostra que a participação da União Europeia (EU) e dos Estados Unidos (EUA) caíram continuamente entre 1980 e 2016 e devem continuar caindo até 2022. Já a China passou a ser a maior economia do mundo (em ppp), a Índia caminha para superar os EUA e a UE e a Indonésia tem aumentado persistentemente sua presença na economia internacional.

O gráfico abaixo mostra que enquanto a soma do PIB da União Europeia e dos Estados Unidos tem declinado permanentemente no PIB mundial, os três grandes países asiáticos, China, Índia e Indonésia, aumentaram continuamente suas participações. A previsão é que as potências orientais ultrapassem as potências ocidentais em 2020.

Evidentemente, o peso dos países em desenvolvimento no PIB mundial é bastante influenciado pelo tamanho da população. Em 1980, os países desenvolvidos tinham uma população de cerca de 1 bilhão de habitantes e os países em desenvolvimento tinham 3,3 bilhões de habitantes. Em 2016, os números eram 1,2 bilhão de habitantes para os primeiros e 6,3 bilhões de habitantes para os segundos.

O gráfico abaixo mostra que a renda per capita dos países desenvolvidos, em 1980, era de US$ 11 mil (em ppp), e dos países em desenvolvimento de US$ 1,5 mil. Ou seja, os “pobres” tinham apenas 14% da renda dos “ricos”. Em 2016, os primeiros tinham renda de US$ 49 mil e os segundos de US$ 11,2 mil, representando 23%. A estimativa para 2022 é de renda per capita de US$ 60 mil para os países desenvolvidos e de US$ 15,5 mil para os países em desenvolvimento, representando 26%. A despeito da enorme desigualdade de renda, as diferenças estão diminuindo e há uma tendência, lenta mas constante, de convergência entre os dois blocos.

O alto crescimento econômico dos países em desenvolvimento pode ser considerado uma boa notícia do ponto de vista da redução das desigualdades de renda e da redução da pobreza. Contudo, o grande crescimento populacional e econômico dos países em desenvolvimento já tem um enorme impacto negativo sobre o meio ambiente. E para agravar a situação, diversos países – como a China – estão transformando suas tradicionais economias agrárias e rurais (de baixo consumo) em economias urbano-industriais altamente dependentes de carros e energia fóssil, com alto consumo conspícuo e elevada emissão de gases de efeito estufa.

A revolução energética e a descarbonização da economia pode amenizar um pouco os danos causados aos ecossistemas. Mas o mundo deveria investir mais na redução das desigualdades internacionais e na mudança radical no modelo “Extrai-Produz-Descarta” para evitar um colapso ambiental. É impossível continuar aumentando as atividades antrópicas em um quadro onde prevalece o fluxo metabólico natural entrópico.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: [email protected]

Publicado pelo EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/10/2017.