Modesta arrogância, artigo de Anoushe Duarte Silveira.

Assisti outro dias desses à peça “Modéstia”, do diretor argentino Rafael Spregelburg. Resumidamente falando, já que se trata de uma dramaturgia bem complexa, a peça conta duas histórias: uma em Buenos Aires na atualidade e outra na Rússia do século passado. Um verdadeiro quebra-cabeça que trata de várias crises do mundo moderno. Mas o que mais me chamou atenção foi a abordagem da modéstia como pecado.

O texto faz parte de uma heptologia escrita por Spregelburd. Inspirado pela pintura “A Roda dos Pecados Capitais”, de Hieronymus Bosch, o autor decidiu escrever peças sobre o que para ele seriam os sete pecados contemporâneos. A primeira foi “A Inapetência”, seguida de “A Extravagância” (ambas de 1996); e “A Modéstia” (1999). Depois vieram “A Estupidez”; “O Pânico” (2002); “A Paranoia” (2008); e “A Teimosia” (2009).

Nunca pensei na modéstia como pecado, como sinônimo de soberba. Sempre a vi como virtude. E o autor conseguiu chamar a atenção para esse outro lado: “Esse prazer soberbo e culposo de se sentir um pouco menos do que se é, com o objetivo íntimo, talvez, de pagar em cotas cômodas uma dívida infinita”, disse. Provavelmente, um pecado contemporâneo. Por que não?

Muitas vezes exageramos na medida de nossas virtudes. O que vem corroborar o pensamento de que todo excesso é prejudicial, até mesmo daquilo que seria uma qualidade. Mas onde está o limite entre a modéstia e a arrogância? Difícil saber quando o exagero, até mesmo, de uma qualidade torna-se prejudicial…

Na peça, um escritor tuberculoso é convencido pela esposa a tentar vender os direitos de um livro que não é seu, e sim do seu sogro já falecido, em troca de tratamento para sua doença. A ideia era que ele desse continuidade ao livro, mas ele não consegue e sucumbe à doença e à incapacidade de escrever. Talvez a modéstia o tenha impedido de dar prosseguimento a uma linha de raciocínio considerada brilhante por sua esposa e pelo médico.

E assim como o personagem, vemos várias pessoas paralisadas, muitas vezes, pela modéstia. Ouvimos a todo tempo frases como “não sou capaz”, “você não me merece”, “isso é muito para mim”… O mundo aplaude quem se sente assim e condena quem se diz capacitado, quem diz que é bom no que faz, tem confiança no que sente porque é considerado soberbo, arrogante. Como se a modéstia estivesse sempre ligada à humildade e o orgulho de si mesmo sempre fosse uma pretensão.

Sei que é difícil encontrar esses limites, mas gostei bastante da reflexão que o autor da peça se propôs a fazer. Sentir-se menos e até em dívida eterna com a vida não me parece saudável. Por isso, talvez seja tão importante encontrar esse equilíbrio. Tentar ao menos… Porque na nossa imperfeição, não há quem nunca tenha sido inapetente, extravagante, modesto, estúpido, paranoico, teimoso ou entrado em pânico. A questão é o quanto…

“Nas pessoas de capacidade limitada, a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui grande talento, é hipocrisia”.
Arthur Schopenhauer

Anoushe Duarte Silveiraé brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em coautoria, selecionados em concursos literários. 

Revista Cidadania & Meio Ambiente n° 37

Revista Cidadania & Meio Ambiente 37

¤ Para o acessar a Edição n° 37, com 2,28 Mb, clique AQUI.

I ENCONTRO DE ECOPEDAGOGIA

O movimento  Ecopedagogia ,junto aos nossos  parceiros,  realizará  uma oficina de saberes coletivos para ressaltar a importância da educação ambiental na escola e nos diversos ambientes de convivência humana,  oportunizando esses espaços críticos para divulgar ações inerentes a carta da Terra – documento que aborda diretrizes socioambientais por meio da educação ética, cidadã e solidária.

O Lanche será eco-solidário: Trazer frutas

Coordenação do Evento: Luciana Ribeiro

Acesse para saber mais:

Realização:

Escola da Natureza de Brasília – SEE-DF(Lêda Bhadra e equipe de trabalho)/ INEIB -Instituto de Educação Integrada do Brasil (Júlia Camargo) / ONG Círculo de GIZ-UnB(Luciana Bareicha e Paulo Bareicha)/Projeto Vida e Sensível (Juliana Ribeiro) Movimento Ecopedagogia (Luciana Ribeiro).

Apoio:

CAESB / Instituto DSOP /FURNAS /SENAC /Jornal Meio Ambiente /Blog Biosfera /Blog Caiçara Expedições/Blog Logística Reversa/Observatório Ambiental/ ONG Pim /Blog FuraBolha /Blog Sou Ecológico/ Blog Parque Três Meninas /Blog Pensar Eco Lógico /Câmara de Cultura /Apoema /ONG Grupo Garra Programa Entrevista Amazônia /Editora Mundo da Lulu /Editora Ler / Professor Luiz Rios/Professora Delma Rodrigues.

Programação:

*Dinâmica Grupal que insere a Carta da Terra e o movimento ecopedagogia– Responsável: Lêda Bhadra

*Apresentação do Musical “Vamos Preservar o Planetinha”, e um depoimento sobre os trabalhos que a Pedagoga Roseni e equipe de trabalho do SLU – Sistema de Limpeza Urbana –DF desenvolvem nas escolas da DF;

*Apresentação dos personagens: “Vida e Sensível”- abordando a preservação ambiental por meio da Pedagogia Hospitalar e Escolar – Responsável: Juliana Ribeiro;

*Bate-Papo com Patrícia Guarnieri – sobre a Política Nacional dos Resíduos Sólidos e sua implementação no contexto escolar;

*Discussão sobre as expectativas do Curso Pós-Graduação SENAC/EAD – DF Responsável: Alexandra Martins;

*Eco-vivência teatral sobre “O poder da Sustentabilidade”. Responsáveis: Paulo Bareicha e Luciana Bareicha;

*Depoimentos de professores e coordenadores que participaram da eco-vivência propiciada pela Carta da Terra e pelo livro Ana Folha e a Turma do Lixão: “Vamos preservar nossas florestas”;

*Lanche Eco-solidário (Trazer frutas para compartilhar com os participantes do evento) ;

*Distribuição da Carta da Terra;

*Sorteio de livros doados por escritores e editoras;

*Entrega de lembrancinhas ecológicas;

*Registro de fatos e depoimentos que serão registrados como documentário.

Peça “A Quadrilha” revisita poema Clássico de Carlos Drummond de Andrade.

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história”

Um dos trabalhos mais lembrados do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) ganha novos ares. “A Quadrilha” é uma comédia escrita por Jomar Magalhães inspirada no clássico poema visto, revisto e lembrado por todos. O desafio da montagem foi aceito pela Profana Trupe, grupo de teatro formado por seis jovens atores e tem direção de Cris Muñoz.

A história começa na pequena cidade de Mirandela do Norte, interior do estado do Rio de Janeiro, quando o Padre da cidade realiza o curso de preparação matrimonial. O caos começa a se instaurar quando Maria – uma das noivas – revela que não pretende se casar com Raimundo, porque ama outro homem (Joaquim) . Teresa – comprometida com João – também revela estar apaixonada por Raimundo e logo em seguida Lili confessa não amar ninguém, para o desespero do noivo, Joaquim.

Daí em diante, o jovem padre tenta reverter a situação. Mas tudo que o vigário consegue é piorá-la mais ainda: um noivo se suicida, outro morre de desastre e um deles se muda para os Estados Unidos. E na cidadezinha não se fala em outra coisa além das trapalhadas do religioso e da festa de casamento – que seria um dos grandes acontecimentos da cidade – posta em cheque. Além do padre, outra figura importante, o prefeito, se preocupa com o futuro do evento e as consequências (principalmente nas urnas) do fiasco.

João, Teresa, Raimundo, Maria, Lili e até José Pinto Fernandes ganham rostos e personalidades bem distintas. João é um filho de pai comunista, tendo até toque de recolher para voltar para casa.Teresa é o alvo preferido das fofoqueiras de plantão por sua fama de namoradeira. Raimundo é nordestino, trabalha na oficina da cidade e não é nem um pouco sutil. Maria tem um temperamento oscilante e é uma tia coruja, como o próprio poema revela. Já Lili é de uma mente inquieta que adora viajar nos próprios pensamentos e apesar de “não amar ninguém” se mostra no final uma profunda apaixonada pela vida. Já José Pinto Fernandes se revela no final, mas desde o começo é parte importante da história.

A peça estreia no dia 5 de maio, na sede da Cia (Rua Conde de Irajá, número 253 em Botafogo), e fica em cartaz durante todo o mês.

Informações

A Quadrilha”

Texto estreia em maio na Sede da Cia de Teatro Contemporâneo em Botafogo

Estreia: 5 de maio, sábados as 21 e domingos, às 20 horas

Duração – aprox. 60 minutos

Ingresso – R$ 30,00

Ingressos a venda via internet pelo site www.ingresso.com

Temporada de 5 a 27 de Maio de 2012
Meia entrada para idosos e estudantes.

Companhia de Teatro contemporâneo – Rua Conde de Irajá, número 253, Botafogo
Capacidade: 100 lugares / Ar Condicionado / Lanchonete

Classificação – 16 anos

Estacionamento próximo – esquina da Conde de Irajá com Voluntários da Pátria
Site: www.ciadeteatrocontemporaneo.com.br

Ficha Técnica

Texto: Jomar Magalhães

Direção: Cris Muñoz

Assistente de direção: Bruno Strorck Carvalho

Produção Executiva: Raianny Rodrigues e Luiza Machado

Assistente de produção: Elisa D’Oliveira

Supervisão de produção: Dinho Valladares

Figurinos , Cenário, Coreografía: Maciel Tavares

Coreografia: Maciel Tavares

Trilha Sonora: Paulo Fonseca, João de Carvalho e Zé Guilherme.

Elenco

Eliza D’Oliveira Lili/ Fofoqueira

Elvis Xavier João / Fotógrafo / coroinha

João de Carvalho Padre

Luciano Martins Prefeito Olegário / Sacristão

Luiza Machado Maria / Fofoqueira/ Pastoret

Maria Clara Nascimento Fofoqueira/ mulher do prefeiro

Raianny Rodrigues Teresa / fofoqueira/ Clarinha/ Pastoret

Rafael Nunes Raimundo / Pastor / Fofoqueira

Zé Guilherme Joaquim / Ludmila

Anna Carolina Martins Faxineira / Fofoqueira

Inspiração realista, artigo de Anoushe Duarte Silveira.

Esta semana fui a um sarau em Brasília sobre o escritor Jorge Amado. Houve leitura de textos do autor intercalados a belíssimas interpretações de músicas afro-brasileiras, com tumbadoras e atabaques, lembrando o candomblé tão presente em sua obra. E durante a narração, o que mais me encantou foi a sensualidade que pairou no ar, sensualidade que tão bem ele soube descrever em seus personagens, sobretudo os femininos. Uma sensualidade explícita, outras vezes velada, reprimida por um papel social tradicional e estereotipado que às vezes impede a mulher de ser ela mesma.

Essa capacidade de descrever a alma feminina me encanta em Jorge Amado. A todo tempo, ele apresenta essa luta interna em busca dos limites entre a depravação e o pudor, a culpa e a inocência, o santo e o profano, a liberdade e a libertinagem. Conflitos que a maioria das mulheres traz consigo em menor ou maior grau.

Gabriela, do romance “Gabriela, Cravo e Canela”, enlouquece o árabe Nacib com sua cor de canela e cheiro de cravo, suas ancas volumosas, seu jeito fogoso, sorriso farto. Apaixonado e ciumento, Nacib se casa com ela. Gabriela passa a ter obrigações que não combinam com seu espírito livre e rústico e é flagrada na cama com Tonico Bastos. Nacib dá uma surra na esposa e anula o casamento. E vem o conflito de Gabriela, não da traição, mas de culpar-se por haver casado mesmo sabendo que não suportaria a fidelidade imposta pelo casamento: “Ainda roxa dos golpes, Gabriela pensa. … Tão bom seu Nacib! Bateu nela, estava com raiva. A culpa era dela, por que aceitara casar? …Medo talvez de perdê-lo, de um dia ele casar com outra, mandá-la embora. Foi por isso certamente. Fez mal, não devia aceitar. Antes fora a pura alegria”.

Dona Flor, de “Dona Flor e seus dois maridos”, vive o conflito entre ceder aos encantos do espírito do ex-marido (filho de Exú), que em vida era um grande amante, ou manter-se fiel ao atual marido, mais velho, pacato e religioso e que lhe proporciona a segurança que ela nunca teve com o anterior. Somente ela vê o espírito do primeiro marido, Vadinho, e o fato de ser um espírito não a exime da culpa por se entregar aos prazeres “carnais”. “Que pode dona Flor dizer? ‘Vai-te embora, maldito, deixa-me honrada e feliz com meu esposo’ ou bem ‘Toma-me em teus braços, penetra minha última fortaleza, teu beijo vale o preço de qualquer felicidade’, que lhe dizer? Por que cada criatura se divide em duas, por que é necessário sempre se dilacerar entre dois amores, por que o coração contém de uma só vez dois sentimentos, controversos e opostos?”. No plano fantástico ela acaba resolvendo seus conflitos e criando um triângulo amoroso.

Tieta, de “Tieta do Agreste”, vive a dualidade entre o santo e o profano. Quando jovem, seu comportamento livre escandaliza a comunidade e é rejeitada. Quando retorna rica e poderosa, porém sem revelar sua identidade, é considerada santa pela população provinciana e preconceituosa.

E esses conflitos e dualidades tão inerentes ao mundo feminino estão presentes também na figura de Teresa Batista, Adalgisa, Manela, todas criações do mesmo mestre e inspiradas em nós, mulheres brasileiras. Nós, que somos muitas em uma só: umas com cor de canela, outras com cheiro de cravo, frágeis, guerreiras, às vezes carnais, outras santas… E sensuais, muito sensuais…

“Não me sinto constrangido, pois não sou pornográfico nem obsceno, sou escritor realista”. (Jorge Amado)

Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários. 

Tempos líquidos, artigo de Anoushe Duarte Silveira.

Na semana passada, fui assistir ao documentário polonês Jardins Lawnswood, do festival É tudo verdade, em Brasília. No filme, após a morte de sua esposa, o filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman, um dos mais consistentes críticos ao modo de vida pós moderno, traça um panorama de sua vida e obra e discorre sobre a sociedade de consumo, a ética e sobre momentos cruciais de sua vida, como o abandono da Polônia em 1968, após ter artigos e livros censurados pelo regime comunista.

O documentário é fantástico, visualmente falando e principalmente na profundidade dos diálogos. Fiquei profundamente tocada quando ele, um senhor de quase 90 anos, falou sobre sua percepção de que vivemos em um tempo no qual as relações são mais fluidas e as pessoas não se comprometem tanto quanto outrora. É o que ele chama de modernidade líquida. Tão intrigada que fui buscar mais informação a seu respeito.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, outubro de 2003, ele fala sobre o assunto abordado no documentário.¨Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da liquidez para caracterizar o estado da sociedade moderna, que, como os líquidos, se caracteriza por uma incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades autoevidentes. É verdade que a vida moderna foi desde o início desenraizadora e derretia os sólidos e profanava os sagrados, como os jovens Marx e Engels notaram. Mas enquanto no passado isso se fazia para ser novamente reenraizado, agora as coisas todas – empregos, relacionamentos, know-hows etc – tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis.¨

O que o sociólogo quer é tentar compreender quais as consequências dessa situação para a lógica do indivíduo, para seu cotidiano. Segundo ele, virtualmente todos os aspectos da vida humana são afetados quando se vive a cada momento sem que a perspectiva de longo prazo tenha mais sentido.

Hoje o que vivemos é isso, em todos os setores de nossa condição humana. Os empregos não são duradouros, a rapidez do mercado exige mil e uma especializações que faz com que a gente se perca e se sinta estagnado com pouco tempo de trabalho em um mesmo lugar. Se uma pessoa está há 20 anos em um emprego é tida como acomodada. Não importa o que ela esteja desenvolvendo por lá. Zygmunt cita, na mesma entrevista, que na época da modernidade sólida, quem entrasse como aprendiz nas fábricas da Renault ou Ford iria com toda probabilidade ter ali uma longa carreira e se aposentar após 40 ou 45 anos. Hoje mal sabemos o que poderá nos acontecer em um trabalho no ano seguinte.

Infelizmente as relações afetivas também são assim, voláteis. Na nossa geração é mais comum encontrar pais separados que casais lutando para manter a família. No primeiro empecilho é mais fácil desistir a tentar resolver as questões, afinal o mundo apresenta milhões de outras opções aparentemente mais fáceis. Sobre o assunto, o sociólogo, que teve um casamento duradouro, apresenta a teoria do amor líquido. Ele explora o impacto dessa situação nas relações humans, ¨quando o indivíduo se vê diante de um dilema terrível: de um lado ele precisa dos outros como do ar que respira, mas, ao mesmo tempo, ele tem medo de desenvolver relacionamentos mais profundos, que o imobilizem num mundo em permante movimento.¨

Viver em mundo em permanente movimento às vezes te paraliza. E percebo que é essa a causa da maioria das angústias e depressão. O tempo tem de ser preenchido, se você deseja parar é fraco. E daí falta tempo para viver em comunidade, perceber o outro e a si mesmo, tornar-se melhor e o mundo vai ficando cada vez mais individualista – as pessoas tornam-se obsecadas pelo corpo ¨ideal¨, endividam-se por luxos desnecessários, alimentam-se de incertezas.

O motivo da pressa na vida ¨agorista¨, confome o sociólogo, é em parte o impulso de adquirir e juntar. Mas o motivo que torna a pressa de fato imperativa é a necessidade de descartar e substituir. Por isso, acho que tempo é hoje um dos artigos mais preciosos e caros a serem adquiridos. E agregado a ele vem uma enorme esperança de conseguirmos aprender a viver a longo prazo, a solidificar nossas relações e a estar mais preparados às mudanças que a vida nos apresenta, porque as relações fluidas se esvaem na primeira dificuldade. Afinal, ¨a árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos¨. (Zygmunt Bauman)

Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em coautoria, selecionados em concursos literários.

Cinema no Rio São Francisco 2012 – 7ª Edição – 20 de abril

Telão inflado, projetor ligado, cadeiras a postos. Tudo pronto para mais uma sessão do Projeto Cinema no Rio São Francisco, que desde 2004 percorre o rio da integração nacional com o objetivo de democratizar o acesso à cultura exibindo filmes para as comunidades ribeirinhas.

Esse ano o projeto completa sete anos de difusão da sétima arte. Para comemorar a data, a equipe parte para mais uma expedição em abril. Dessa vez, o Cinema no Rio vai percorrer 13 cidades no estado de Minas Gerais.

O projeto comemora também os 510 anos do Velho Chico, esse caudaloso rio habitado por indígenas e anteriormente conhecido como opará, algo como “rio-mar”. Ele foi descoberto por Américo Vespúcio no dia 4 de outubro de 1501, dia de São Francisco. Desde então, fez parte de importantes momentos históricos do país.

Assim, o Cinema no Rio realiza uma série de atividades com o objetivo de promover o intercâmbio com as comunidades que vivem as margens do rio São Francisco. A principal é a exibição gratuita de filmes. Crianças, adultos, idosos e até pessoas que nunca viram um filme na vida enchem as praças das cidades. Então é luz, câmera, ação. E as emblemáticas palavras do mundo cinematográfico ganham um novo significado.

Parte desse novo sentido é criado ali mesmo, já que a equipe do projeto é responsável pela produção e veiculação de um documentário local sobre a cidade e seus habitantes. “Nos outros anos a população era mostrada nos filmes. Dessa vez, ela também vai fazer parte da produção desse curta-metragem”, adianta o diretor da CineAr Produções e responsável pela execução do projeto, Inácio Neves.

Depois dos documentários, é hora dos filmes, todos nacionais. Esse ano, o projeto conta com oito curtas e seis longas-metragens, entre eles os recentes O Palhaço, com direção de Selton Mello, e Hotxuá, com direção de Letícia Sabatella e Gringo Cardia. O premiado Girimunho, com direção de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr, também faz parte da lista. Depois de ser exibido em festivais nacionais e internacionais, o filme finalmente será mostrado à cidade de São Romão, aonde foi gravado. “O Girimunho nasceu no projeto Cinema no Rio e agora vai ser visto pelos habitantes que me ajudaram a produzi-lo. É o local onde eu mais tenho vontade de passar o filme”, conta Helvécio Marins Jr, diretor do longa.

As comunidades também ganham conhecimento com a oficina de fotografia Imagem em movimento, direcionada a crianças de 12 a 16 anos. Os oficineiros vão conversar sobre o assunto, ensinar as regras básicas e deixar eles saírem pela cidade fotografando tudo que for interessante. “É o olhar deles sobre o espaço em que vivem”, explica Inácio. Cada participante também será fotografado. O material será então editado e exibido na telona antes dos filmes.

Todo esse sucesso é fruto do entendimento do cinema como uma forma de manifestação cultural. “E nesse projeto ainda é mais do que isso, pois é também uma forma de conhecer as outras manifestações culturais regionais. A proposta não é só proporcionar que eles tenham contato com o cinema, mas que eles tenham contato com suas próprias manifestações”, afirma Inácio.

Ele conta que o grupo de Batuque da cidade de Ponto Chique renasceu após a passagem do Cinema no Rio, na edição de 2006. “Eles diziam que a cidade não gostava deles. Insistimos e eles acabaram se apresentando. Foi um sucesso. Pela primeira vez vimos as pessoas da comunidade participando”, lembra Inácio. O grupo criou asas e chegou a fazer apresentações até em Brasília.

Desde que foi criado, o projeto passou por diversas cidades de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, os cinco estados que recebem as águas do Velho Chico. Com as sessões gratuitas dos filmes o Cinema no Rio já levou cultura para mais de 200 mil pessoas.

Enviado por  Juliana Afonso – Assessora de comunicação da Sinal de Fumaça.

Louca perfeição, artigo de Anoushe Duarte Silveira.

A busca incessante pela perfeição leva à loucura? Longe de mim tentar entender o que é loucura e o que é normal. Afinal, ¨de perto ninguém é normal¨. E parece mais difícil ainda tentar entender a tênue linha que separa a loucura da genialidade. Comecei a refletir sobre isso quando fui à exposição do Pixinguinha em Brasília e me chamou a atenção um dos textos onde tentam explicar o porquê de Pixinguinha haver trocado a flauta pelo saxofone. A última vez que ele tocou flauta foi em 1942, na Odeon, trocando-a pelo saxofone. Isso foi motivo de tristeza para fãs e críticos porque ele era considerado o melhor flautista do mundo. O motivo nunca ficou claro.

Quando ele mencionou o assunto, em 1944, disse: ¨Um dia cismei que não tocava mais como queria. Comecei a ter medo. Medo de que notassem os defeitos que eu notava na minha execução. Tempos depois, vi uma imagem do São Francisco de Assis falando aos peixes, que botavam as cabecinhas fora das ondas para ouvir o Santo. Pensei: Pixinga, você já tocou num navio e os peixes não botaram a cabecinha de fora. Você precisa aprender mais flauta, Pixinga! Parei com medo de ficar doido.¨

O escritor Edgar Allan Poe disse: Muitas pessoas já me caracterizaram como louco. Resta saber se a loucura não representa talvez a forma mais elevada de inteligência. Muito antes, o filósofo Platão acreditava numa espécie de loucura divina como base fundamental de toda criatividade e Sócrates atribuia a condução da vida ao seu demônio, a sua voz interior. O pintor Vicent Van Gogh foi, por muitos, considerado louco. E a lista de gênios que ficaram ou atravessaram os limites entre a ¨normalidade¨ e a loucura é interminável…

Pixinguinha parou. O medo da loucura foi seu freio. E esse momento de lucidez não o impediu de continuar sendo um gênio da música brasileira: compositor, instrumentista, arranjador e maestro de um talento incrível. Talvez a genialidade inclua a sabedoria de percebermos que a perfeição é inalcansável.

Vejo muita gente aflita tentando buscar a perfeição. Saindo do mundo da arte, não faltam exemplos de pessoas que tentam a todo custo ultrapassar as barreiras dos seus limites para provar sua genialidade e o mundo vai sendo preenchido cada vez mais pela frustração. É o pensamento de quem não acha suficiente ser bom, de quem busca a perfeição em tudo.

Talvez seja um aspecto importante da vida conhecer nossos limites. Buscar melhorar é necessário sempre, o que é muito diferente de querer atingir a perfeição, um ideal que reúne todas as qualidades e não tem nenhum defeito. Afinal, tentar chegar a uma circunstância que não possa ser melhorada é trilhar por caminhos ilusórios.

É por isso que fico com o ensinamento e a sabedoria do mestre Pixinguinha de saber parar quando percebeu que a sua busca pela perfeição o enlouqueceria. Como bem disse o escritor Johann Goethe:¨O homem que sabe reconhecer os limites da sua prórpria inteligência está mais perto da perfeição¨.

Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em coautoria, selecionados em concursos literários.

Redonda rosa de água , artigo de Anoushe Duarte Silveira.

A percepção dos próprios sentidos muda completamente de uma pessoa para outra. O olhar poético de Pablo Neruda, por exemplo, enxerga uma cebola como “um planeta a reluzir… redonda rosa de água… com escamas de cristal”. A mesma cebola aguça o olfato dos chefes mais exigentes ou tão somente dos amantes de uma boa comida. Não a veem, mas a aspiram como tempero essencial capaz de transformar coisas insossas em sabor. Pintores logo a projetam em cores vivas, material em potencial para a arte. Músicos podem sonorizá-la… Escultores podem inspirar-se numa cebola pra produzir uma bela instalação.

Eu, quando penso em cebola, penso logo em tempero. E para meu espanto maior, não me vem à mente só comida ─ penso logo em gente. Gente é um pouco assim: tem pessoas insossas e temperadas, aceboladas… Qual será o ingrediente que diferencia uma da outra?

O insosso é aquele que pode ter até uma capa bonita ─ belas pernas, olhos, braços… ─ mas foi jogado na gordura sem alho, cebola e sal. Tem olhos bonitos, mas que não dizem nada, olhar vazio; não tem charme no caminhar, dá simples passos, cautelosos, nada ousados; fala muito e não diz nada ou simplesmente nada tem a dizer; não sabe o que fazer com as mãos, não afaga, não dá carinho, não sabe como estendê-las na hora certa. É o tipo de gente que economiza no abraço, no beijo, no olhar. É o tipo de gente que se esconde no medo, nos traumas ─ desculpa ideal par se viver irritantemente contido.

Já a pessoa temperada, na minha humilde opinião, chega e diz a que veio. É aquela refogada em uma panela com alho, cebola, sal, pimenta, tomilho, louro, ufa… E que ficou dourando até pegar gosto. Quase tudo que cair ali fica gostoso… Todo acompanhamento fica bom. É o tipo de gente que vive cercado de gente porque é prazeroso estar ao lado. Os olhares estão sempre voltados para essas pessoas porque seus olhos têm brilho. São o tipo que sabem intervir no tempo certo e, ainda que você não concorde, pensa a respeito, porque não é uma colocação em vão.

Como é bom estar cercada de gente temperada! Que erra, cai, chora e levanta. Que não tem medo de viver porque se não der certo vira “causo” para contar, experiência e até motivo pra rir. Adoro gente acebolada, com várias camadas de experiências tristes e felizes. Porque há momentos em que precisamos chorar, como quando picamos a cebola, mas depois essa mesma cebola vai para a panela e transforma-se em tempero para um delicioso prato a ser saboreado. E assim se tempera a vida!

Anoushe Duarte Silveiraé brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em coautoria, selecionados em concursos literários.

Millôr Fernandes, sempre original , artigo de Anoushe Duarte Silveira.

“Eu sofro de mimfobia/ Tenho medo de mim mesmo/ Mas me enfrento todo dia”. Há pessoas que colecionam figurinhas, selos, carros antigos. Esta semana morreu um colecionador de frases, como essa do início do parágrafo, que eu gostaria de ter escrito: Millôr Fernandes. Não só de frases, mas também de talentos, destacou-se como jornalista, escritor, cartunista, pintor, dramaturgo, tradutor, filósofo… E humorista, acima de tudo! Verdadeiramente, uma grande perda para o Brasil.

Millôr tinha um toque de humor perspicaz, irreverente, irônico, até quando opinava sobre si ou situações de sua vida. Na biografia do escritor, feita por ele mesmo, conta que seu pai morreu quando ainda era um bebê e quando tinha apenas 10 anos morreu sua mãe. “Sozinho no mundo, tive a sensação da injustiça da vida e concluí que Deus, em absoluto, não existia. Mas o sentimento foi de paz, que durou para sempre, com relação à religião: a paz da descrença”.

Era apreciador das mulheres. Um eufemismo para mulherengo? Não posso afirmar… Mas levou a fama. No “Poeminha de Louvor ao ‘Strip-tease’ Secular”, ele começa a falar que, quando criança, mulher mostrar o tornozelo era um apelo, já rapazinho viu as primeiras pernas nuas, mas, na praia, e vai narrando a evolução da moda feminina… até que termina: “Surgiu o biquíni/O maiô, de pequeno, ficando mais pequeno/Não se sabendo mais/Até onde um corpo branco/Pode ficar moreno/Deus/a graça é imerecida/Mas dai-me ainda/Uns aninhos de vida!”.

São poucas as pessoas que passam por essa vida tentando fazer dela uma obra original e não um rascunho. Poucas deixam exemplos a serem seguidos, frases a serem questionadas e lembradas, conselhos significativos. Há quem diga que Millôr era o Oscar Wilde brasileiro e não há como negar. Por isso sempre o admirei e invejei… Inveja branca, é claro!

Quem não gostaria de ter escrito, por exemplo, que: “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”, “chato: indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele”, ou “de todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que abstinência”. E a minha preferida: “viver é desenhar sem borracha”.

Um país como o nosso, que tem vocação para o riso, realmente perdeu muito da sua graça com a partida de Millôr, menos de uma semana após o falecimento de Chico Anysio. “Esta é a verdade: a vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito”. Com uma mente brilhante como a dele, oitenta e sete anos foram pouco. Para nossa sorte e inspiração, grande parte do que ele viveu e pensou, mesmo sem a certeza de serem traços certos ou errados  já que viver é desenhar sem borracha  está aí, registrado nos textos, nos desenhos, nas peças de teatro, nas traduções e, mais importante ainda, na memória que não se apaga. Todo esse registro vai continuar a nos servir como lição de contestação, de senso crítico, de amor ao país e de talento.

Ao ser perguntado em uma entrevista concedida ao site da revista BRAVO em 2009 sobre o quê as pessoas se lembrariam daqui a200 anos quando mencionarem o nome do Millôr, ele respondeu: “Não acredito em obra, mas depois de 250 anos escrevendo, com aquele negócio de fazer uma frase hoje e outra amanhã, tenho muita coisa, muito pensamento espalhado por aí. ‘Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem’, por exemplo. É evidente que algumas dessas frases persistirão”. Só não concordo quando ele diz que “todo homem nasce original e morre plágio”, pois, na minha humilde opinião, o considero uma exceção à sua própria regra.

Anoushe Duarte Silveiraé brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em coautoria, selecionados em concursos literários.