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Nelson Mandela.
Uma entre as várias qualidades que admiro em Nelson Mandela é a sua capacidade de perdoar. Se já sentimos uma dificuldade tremenda em perdoar os pequenos deslizes de nossos companheiros de vida, imagine se seríamos capazes de perdoar os homens responsáveis por anos de opressão de nosso povo, por um regime de segregação racial e violência e nossos próprios algozes por 26 anos? Ele foi. Tanto que, quando assumiu o governo sul africano disse: “O perdão começa aqui!”. Ele poderia ter seguido o exemplo de outros países no mundo e desejar vingança contra seus opressores, mas não, exercitou o perdão para mostrar que as diferenças entre brancos e negros deveriam ser superadas, afinal somos todos iguais. Ensinou, por meio de seu exemplo de vida, que “ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou da sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E, se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar”.
Infelizmente parece que o sonho de Mandela com um dia “…em que todas as pessoas levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos” ainda está distante. Ainda vemos muita guerra, muita disputa pelo poder, muita corrupção, muito preconceito de todos os tipos, seja racial, sexual, de gênero… Mas ele certamente fez a sua parte, contribuiu com praticamente toda uma vida de luta pela liberdade, justiça e democracia de seu povo, por um mundo melhor e igualitário.
Lutou sempre com muita coragem, outra qualidade que admiro. Mandela foi um dos poucos que honrou esse substantivo em todos os aspectos de seu significado. Eu fui conhecer a cela na “robben island”, África do Sul, onde ele e cerca de outros três mil homens foram encarcerados como prisioneiros políticos. Lá, Mandela ficou dezoito anos dormindo em esteiras de palha em um chão de pedra, trabalhando nas pedreiras e enfrentando chuvas e muito frio. A alimentação era determinada pela raça, obviamente a dos brancos era melhor, e o mesmo acontecia com agasalhos e cobertores. Muita gente desistiria, mas Mandela não… Ele se apoiava nos versos do poema “Invictus” de William Ernest Henley, e se levantava. As belas palavras que o erguiam dizem:
“Do fundo da noite que me cobre,/Preta como o Breu de lado a lado/Agradeço a todos deuses pelo nobre/Inconquistável espírito a mim dado./No acaso todo das circunstâncias/Não me deixei cair nem gritar/Apesar de um estouro de ânsias/Minha cabeça sangra sem curvar/Além desse lugar de tristezas e insanos/Nada se vê, só o Horror desde cedo/E ainda assim a ameaça dos anos/encontra-me e encontrar-me-á sem medo/Não importa quantas vezes desatino/nem quantas vezes a vida me espalma/Sou o mestre e senhor do meu destino: Sou o capitão de minha alma.”
Esse espírito inconquistável mudou o mundo, não se curvou. Quantas vezes a gente se curva por muito menos? Quantas vezes a gente não perdoa por infinitamente menos? Quantas vezes a gente reclama e só olha para o próprio umbigo? E a coragem? Cadê a coragem? Quando fomos capitães de nossas almas?
Ele certamente é capitão de sua alma. Um daqueles seres de luz que brinda o mundo com sua presença, com seus atos, com sua coragem, com suas palavras e ensinamentos. Agora seu corpo físico padece pelas consequências dos mal tratos de anos, mas só o físico, a força e a beleza de sua alma continuam lá! Seres de luz um dia voltam para seu local de origem, enquanto isso milhares de pessoas torcem para que não seja agora e unem-se em cantos e orações para dar força a seu “Madiba”, que significa o conciliador. O conciliador, um grande homem, herói, pacificador, além de toda a sua história de vida, basta olhar em seus olhos e ver seu largo sorriso para identificar todos esses merecidos títulos.
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.