Arte para mobilizar e perturbar, artigo de Anoushe Duarte Silveira

Nara Leão. Foto: Divulgação.
Estamos vivenciando tempos de protestos e manifestações no mundo e no Brasil. O povo sai às ruas para mostrar sua indignação contra o aumento das tarifas de transporte, a violência urbana, os custos da Copa do Mundo, a precariedade do serviço público, da educação, da saúde, entre outras reivindicações. A arte, como grande arma de protesto que é, acompanha esse movimento. Nas ruas e nas redes sociais, vemos pinturas, grafites, cartazes criativos, charges, músicas que demonstram a indignação, a vontade de recuperar a participação nas decisões, de ir contra o domínio de interesses de grupos econômicos, de mostrar o transbordar dos nossos limites.
A arte sempre foi uma grande aliada desses movimentos sociais, pois, além de difundir ideias e conscientizar, também tem potencial mobilizador. Ela foi feita para perturbar. Podemos citar inúmeros exemplos de arte com abordagem política e social, como na pintura, “Guernica” de Picasso ou nas músicas de protesto com os Beatles e Rolling Stones, por meio do rock, em favor da liberdade de expressão, pelo fim das guerras e do desarmamento nuclear, ou no Brasil, durante a repressão e a censura instauradas pelo regime militar com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré, entre outros.
Pode ser um quadro, faixas e cartazes, uma instalação ou um banquinho e um violão, como aconteceu com Nara Leão, a musa da Bossa Nova. O título de musa da Bossa Nova lhe foi dado pelo cronista Sérgio Porto, mas a consagração efetiva ocorreu após o movimento militar de 1964, com a apresentação do espetáculo Opinião, ao lado de João do Vale e Zé Keti, um espetáculo de crítica social à dura repressão imposta pelo regime militar.
Em uma entrevista dada a um repórter, em 1965, no início de um governo militar, Nara pediu que entregassem o poder aos civis. As manchetes de jornais alardearam: “Nara é de opinião: esse Exército não vale nada”; “Nara pode ser presa mas não muda de opinião”; “Nara: sou contra militar no poder”; “Entrevista abalou os alicerces do Exército Nacional”; “Considero os exércitos, no plural, desnecessários e prepotentes”; “Meu violão é a única arma que tenho; meu campo de guerra é o palco.”
O resultado é que ela foi ameaçada de prisão e recebeu a solidariedade de nada menos que Carlos Drummond de Andrade, armado de uma poesia chamada Apelo:
Meu honrado marechal/Dirigente da nação/Venho fazer-lhe um apelo/Não prenda Nara Leão…A menina disse coisas/De causar estremeção?/Pois a voz de uma garota/Abala a revolução?/…Nara é pássaro, sabia?/E nem adianta prisão/Para a voz que pelos ares,/
Espalha sua canção…/
Nesse episódio, um violão e uma poesia foram os meios utilizados para se mostrarem indignados contra atos autoritários e abusivos, contra uma estrutura que se julgava inabalável. E tem que ser por aí, lutar pelo que nos é de direito com as melhores armas que temos: manifestos, passeatas, coros e também a arte. Por que não? A bela pintura humana que se formou nas ruas do nosso país vai ficar marcada na história, assim como as vozes em coro que não puderam deixar de ser ouvidas pela força da quantidade e entonação. E talvez seja a hora de mais manifestações artísticas se expressarem, como aconteceu em outras épocas. O Brasil acordou, que também desperte por meio da arte!
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.