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A cada novo mês, nos deparamos com quebras de recordes nos desmatamentos e queimadas de nossa vegetação nativa.
Até o dia 22 de outubro, o número de queimadas na Amazônia já havia superado os registros do ano de 2019, quando a média mensal de áreas que receberam alertas de desmatamentos pelo Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real) foi de 1.189 Km2, enquanto que entre 2015 e 2018 foi de 576 Km2.
Os focos de calor no mês de outubro de 2020 já foram 73% superiores ao do mês de setembro e também é superior a anos anteriores. Esta espiral do fogo e do desmatamento, porque os dois estão diretamente relacionados, vem consumindo a biodiversidade brasileira e ameaçando a sobrevivência das comunidades indígenas. Também, mudanças no uso do solo e o agronegócio são os principais vetores de emissão dos gases de efeito estufa (GEE), que intensificam o aquecimento global, o que coloca o Brasil como o sétimo maior emissor do mundo.
Os últimos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) já apontavam que riscos associados ao clima para os sistemas natural e humano são maiores para o aquecimento global de 1,5°C que para o atual (que já está em torno de 1°C), mas ainda menores que para 2°C. Esses riscos dependem da magnitude e ritmo do aquecimento, localização geográfica, níveis de desenvolvimento e vulnerabilidade, de escolhas e da implementação de políticas de adaptação às mudanças climáticas e de mitigação das emissões de GEE.
A cada aumento de temperatura, aumentam também os riscos associados ao clima para a saúde, para os meios de subsistência, para a manutenção da biodiversidade, para a segurança alimentar, o abastecimento de água e para o crescimento econômico. Estes efeitos são sentidos de forma ainda mais severa pela população de baixa renda, intensificando as desigualdades socioeconômicas entre os indivíduos.
A este cenário desafiador, se soma uma pressão cada vez maior da comunidade internacional, que será liderada a partir de janeiro de 2020 pelo presidente eleito dos EUA, Joe Biden, e sua agenda prioritária de combate à crise climática.
A pressão, portanto, para que o Brasil garanta o cumprimento de nosso aparato de proteção ambiental e se empenhe não só a cumprir as metas do Acordo de Paris, mas renová-las com mais ousadia, aumenta bastante com o início do governo Biden-Harris nos EUA.
Neste contexto, o Brasil deve, junto aos demais países signatários do Acordo de Paris, submeter até o final deste ano metas e planos de ação mais ousados que permitam que o aumento da temperatura global da Terra se limite à 2°C (o que já traz consequências bastante graves).
Naomi Klein afirma que o negacionismo climático não será mais voltado à negação da ciência do clima, mas sim às políticas de proteção às populações mais vulneráveis que necessariamente deverão ser tomadas pelos governantes no combate à crise climática que vem se intensificando, e que traz impactos desiguais nas diferentes regiões do planeta.
E as respostas passam necessariamente, portanto, por pensar em desigualdade e crise climática.
É preciso garantir a proteção dos biomas, zerar o desmatamento ilegal, proteger as populações indígenas e as populações mais vulneráveis.
*Helena Margarido Moreira é doutora em Geografia pela USP e Professora de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi
Fonte: EcoDebate , ISSN 2446-9394, 15/12/2020.