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Estou lendo um livro muito interessante do renomado autor peruano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, chamado ” O Sonho do Celta”. É um romance histórico que narra a saga de Roger Casement, irlandês a serviço do Império Britânico , que viveu a violência da colonização na África e na América do Sul no começo do século XX. Um belo livro sobre coragem e superação.
A barbárie descrita é impressionante, como é triste lembrar que o ser humano é capaz de ser tão brutal e mais triste ainda pensar que essa fórmula de adquirir e enriquecer pela submissão e humilhação do próximo continua acontecendo a todo tempo, ainda hoje, e, infelizmente, sem perspectiva de terminar. O homem continua dando asas à suas feras…
Bem, o personagem do livro, Roger Casement, denunciou essas atrocidades do início do século XX e acabou sendo condenado à pena de morte. Na prisão, uma conversa entre ele e um sacerdote me chamou particularmente a atenção. Os dois falavam sobre religião e sobre o medo, quando ele confessou estar sentindo medo de morrer pela primeira vez, mesmo tendo se deparado com a morte por tantas vezes ao longo da vida.
Roger contou ao sacerdote que, por muitas vezes em suas expedições, viu negros e brancos entrarem em crises de desespero, viu de perto os estados de alucinação provocados pelo pânico e se perguntou se o transe dos místicos seria assim. “Um estado de suspensão de si mesmo, de todos os reflexos carnais, provocado pelo encontro com Deus?”. O padre respondeu que talvez seja um mesmo caminho percorrido pelos místicos e por todos aqueles que vivem esses estados de transe: os poetas, os músicos, os feiticeiros.
Achei uma comparação interessante. Existem certas obras de arte, seja uma pintura, uma música, um poema, que parecem mesmo ter sido feitas em um momento de conexão com Deus, em um momento que transcende a matéria que é o corpo humano. Têm certas coisas que o homem cria, que, realmente, parecem chegar próximo ao divino. Belíssimas arquiteturas, monumentos como as pirâmides do Egito, castelos, templos, as construções grandiosas de Dubai… Ou quando, por meio do espiritualismo, o ser humano consegue chegar a essa conexão com Deus, ou com essa força que pode ter outros nomes, seja por meio da oração, meditação, rituais, enfim, parece ser o mesmo transe…
Esse estado de suspensão de si seria o mesmo em uma situação de extremo medo ou durante o transe do misticismo e da criação, como sugeriram no livro? Não dá para afirmar, assim como acontece com as grandes questões da vida… Mas uma coisa, sim, dá para afirmar, o homem tem um grande potencial, principalmente se o usa para realizar coisas boas na vida. Infelizmente, muitos preferem conectar-se às feras que existem em nós a encontrar-se com o divino.
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.