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Assisti a um filme da África do Sul e da Inglaterra chamado Tsotsi (infância roubada), lançado em 2005. A história é baseada em um romance do escritor sul africano Athol Fugard e o nome do personagem principal, Tsotsi, quer dizer bando, delinquente juvenil, na linguagem das ruas do Soweto, gueto negro do subúrbio de Joanesburgo (África do Sul). Em 2006, venceu a categoria de melhor filme estrangeiro.
O filme é bem pesado, mostra a realidade das favelas de Joanesburgo, o típico drama da criança que, abandonada pelos pais acostuma-se a uma vida de violência, marginalidade, falta de amor e acaba tornando-se um assassino frio e sem piedade. Realidade, infelizmente, nada diferente da nossa aqui no Brasil.
Uma cena em particular me chamou a atenção. No filme, Tsotsi assalta uma mulher que estava chegando em casa, dá um tiro nela e leva seu carro. Só depois percebe que havia um bebê dentro do veículo. Ele leva o bebê para a favela e tenta cuidar sozinho da criança, sem muito sucesso.
Na favela, percebe uma mulher carregando um recém-nascido e a segue até sua casa. Aborda a moça e a força a amamentar as duas crianças. Com medo das ameaças de Tsotsi e por compaixão pelo bebê, ela continua amamentando e cuidando devidamente do menino.
Enquanto a mulher amamentava as duas crianças, ele começou a observar móbiles de enfeitar berços, feitos por ela, pendurados pela casa. Um foi feito com vitrais coloridos, o outro completamente cinza, feito de restos de latas. Então Tsotsi questiona porque um é tão colorido e o outro tão cinza. Ela então responde: quando eu fiz o colorido estava feliz, o móbile de restos de lata fiz quando eu estava triste.
Tsotsi pergunta o preço do móbile de vitrais e ela diz ser o equivalente a uns 15 reais. Mas tudo isso por um monte de pedaços de vidro?, ele pergunta. Então ela responde: Tudo é a maneira de enxergar, você só vê restos de vidros e eu vejo cores refletindo em você. Então ele se olhou e viu todo o colorido dos vitrais refletidos em seu corpo.
O filme provoca várias reflexões sobre as consequências de uma infância roubada ─ sem a presença dos pais, sem amor ─ sobre a marginalidade, a ausência de dignidade e nos faz pensar também sobre o outro lado do monstro aparente, o lado bom que foi reprimido e sedimentado pelas durezas da vida. Na metáfora dos vitrais, essa parte humana seria o lado colorido do marginal Tsotsi, que fez com que ele tivesse carinho pelo bebê e entrasse em contato com sua própria infância perdida.
Muitas vezes simplesmente não conseguimos enxergar o colorido dos vitrais, nem em relação aos fatos e muito menos em relação às pessoas. Parece ser sempre mais fácil nos considerarmos vítimas das situações. Ter uma visão mais apurada sobre o que nos acontece e sobre aqueles que nos cercam parece ser o grande desafio. Se fizermos esse exercício, quem sabe consigamos ter uma opinião diferente sobre os fatos que não conseguimos mudar e sobre aqueles que ainda não conseguimos conquistar? Pode ser que haja muito menos vidros e latas quebradas em nossas vidas do que a gente consegue imaginar…
Anoushe Duarte Silveiraé brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.