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Clara Nunes.
Este mês são lembrados os 30 anos da morte de Clara Nunes. Eu tinha quase nove anos quando ela se foi, aos quarenta, e me lembro vagamente da comoção de seus fãs, principalmente por ter sido uma morte tão repentina e de alguém tão talentosa e jovem. Ela era realmente muito querida por seu público.
Para homenageá-la, vários eventos estão sendo realizados. Em sua terra natal, a cidade mineira de Caetanópolis, foi inaugurado o Memorial Clara Nunes, em frente à creche que leva seu nome. Também estão sendo realizados espetáculos, shows, coletâneas, documentário, reedição de biografia, enfim, inúmeras e merecidas lembranças de quem foi considerada uma das maiores intérpretes do país. Porém, em minha humilde opinião, de todas as homenagens a mais linda é a música “Um ser de Luz”.
“Um ser de luz” é muito mais que uma música, é o exorcismo de uma saudade, é a beleza da admiração e do amor externados em versos melódicos. O poeta e letrista Paulo César Pinheiro (viúvo de Clara Nunes) recebeu a proposta dos compositores Mauro Duarte e João Nogueira de criar um samba de adeus para ela, no mesmo ano em que ela faleceu (1983). Li em um trecho do livro “Paulo César Pinheiro – História das minhas canções”, que no início ele achou a ideia meio absurda, não tinha cabeça para pensar nisso, mas depois foi convencido por João Nogueira com o argumento de que exorcizaria seus demônios e ao mesmo tempo calaria a voz dos oportunistas de plantão. “Pensa nisso com mais calma. Sei que o poeta ainda está sob o efeito da porrada. Mas vai valer é tua alma, companheiro. Ninguém vai se atrever a arriscar um samba depois do teu”, disse Nogueira. Convencido, nasceu “Um ser de Luz”, em parceria com os dois músicos.
A música e nesse caso o samba, especificamente, tem mesmo poder de dilacerar o coração, tanto para quem ouve como para quem faz. Impossível ouvi-lo e não se emocionar. Impossível ouvi-lo e não fazer a ligação imediata com a beleza da voz de Clara Nunes, que “onde chegava espantava a dor, com a força do seu cantar”.
Também é difícil não se emocionar com a beleza dos versos que o letrista construiu para expressar a enorme presença da falta que ela faz. “Mas aconteceu um dia/ Foi quando o Menino Deus chamou/
E ela foi pra cantar/ Para além do luar/ Onde moram as estrelas/ E a gente fica a lembrar/ Vendo o céu clarear/ Na esperança de vê-la, sabiá!/ Sabiá, que falta faz sua alegria/ Meu canto agora é só melancolia/Canta meu sabiá/Voa meu sabiá/Adeus meu sabiá/Até um dia!”
Uma linda homenagem para alguém que fez do canto a sua missão, uma dádiva para quem ouvia, um verdadeiro Sabiá! Até um dia….
“Eu tenho a grande missão de cantar, eu acho que todas as pessoas tem uma missão, a gente está aqui nesse mundo, ninguém está passeando ou passando férias, está todo mundo aqui cumprindo um compromisso já assumido em outras vidas, eu entendo assim.” (Clara Nunes)
“João tinha razão. A melodia foi feita e eu criei os versos mais definitivos que pude do acontecimento. Ninguém ousou fazer outro, nunca mais. Porém foi de dilacerar o coração, e eu jamais consegui cantá-lo” (Paulo César Pinheiro, História das minhas canções – Sobre a música “Um ser de luz”)
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.