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Eu fui apresentada aos contos de Mario Benedetti em uma viagem que fiz a Montevidéu, no Uruguai, no início deste ano. Já conhecia a beleza de seus poemas e me deparei com a mesma intensidade de sentimento durante a leitura de seus contos. O autor uruguaio escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema, e é considerado um dos principais autores de seu país.
Um de seus contos me chamou bastante atenção por sua singeleza, o “Esa Boca”. É a história de um menino de sete anos que sonhava conhecer o circo, principalmente por causa dos palhaços. Todos os irmãos e os coleguinhas de escola já haviam ido ao circo, menos ele… Tudo porque seus pais achavam que ele se impressionaria demais com os trapezistas.
Como a fixação dele eram os palhaços, combinou com os pais que iria ao circo e sairia antes do número dos trapezistas. Já no circo, não se continha de tanta ansiedade à espera dos palhaços. Até que chegou o momento tão sonhado… Ficou atento a cada brincadeira, piadinha, saltos e briguinhas simuladas entres os palhaços grandes e anões. Então, o maior palhaço e sem dúvida o mais engraçado se aproximou bem do menino. Tão perto que a criança pode distinguir a boca cansada do homem embaixo do sorriso pintado e fixo do artista.
Como o próximo número seria o dos trapezistas, a mãe o levou. A criança saiu com o peito vazio e os olhos cheios de lágrimas. Sem entender, a mãe perguntou se ele estava chorando e se era por causa dos trapezistas. E então, para deixar bem claro que os trapezistas não lhe diziam nada, explicou à mãe que chorava porque os palhaços não o faziam sorrir.
A beleza do conto está também nas múltiplas interpretações que oferece ao leitor e na possibilidade de nos identificarmos com ele. Esse me tocou bastante, principalmente porque me remeteu ao momento em que a nossa criança se depara com a dura realidade, umas mais cedo que outras, umas com uma realidade mais dura que outras… Quando o brinquedo precisa ser trocado por horas de trabalho, quando o encanto da escola é substituído pela frieza das esquinas ou quando a morte leva um ente querido. Enfim, coisas da vida…
Enxergar por trás das máscaras é tarefa difícil até para nós, adultos, imagine para uma criança. Mas acontece… Mesmo assim, manter o nosso lado lúdico, deixar a criança vir à tona de vez em quando, ser infantil na medida certa é fundamental para amenizar os efeitos do sorriso triste do palhaço em nossa vida…
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.