No tempo em que os bichos falavam, artigo de Anoushe Duarte Silveira.

Foto: Agência Brasil.
Era uma vez dois irmãos que viviam em Hanau, na Alemanha, e gostavam muito de escrever histórias cheias de aventuras, heróis, vilões, bruxas, monstros, lobos e dragões, como no tempo em que os bichos falavam… Eles escreveram um monte de histórias separados, até que em um dia 20 de dezembro, só que há duzentos anos, 51 dos seus contos foram recolhidos e publicados com o título “Histórias das Crianças e do Lar”. Os textos por eles publicados espalharam-se logo pelo mundo, ganharam outras versões e fascinaram pessoas de diferentes línguas e culturas.
Foi então que ficaram famosas a linda garotinha que usava um chapéu vermelho, uma moça branca como a neve e a gata borralheira, entre milhões de outros cativantes personagens. Essa é uma pequena parte da história dos irmãos que participaram de uma boa parte da nossa: Jacob e Wilhelm Grimm, conhecidos mundialmente como irmãos Grimm.
Divulgar uma história naquela época, não era como hoje, com tanta tecnologia. Elas eram transmitidas oralmente, dos mais velhos para os mais novos, poucas ganhavam versões escritas. O registro escrito dessas histórias populares tornava mais fácil a sua preservação. Foi então que os irmãos trataram logo de pesquisar relatos em documentos antigos e recolher contos entre a população da Alemanha para perpetuá-los.
Além disso, Jacob e Wilhelm Grimm iniciaram o primeiro dicionário histórico da língua alemã, que foi concluído somente em 1961, e fizeram com que a germanística passasse a ser uma disciplina universitária.
Acho que a lembrança dos irmãos Grimm é um belo presente de Natal! Por vários motivos. Eles rechearam nossas vidas de boas lições e magia, um pouco daquilo que ainda não tem preço, neste mundo consumista… Boas lições como a busca da realização de um sonho, humildade, esperança, como no caso da gata borralheira. Ou o ensinamento de que a obediência é uma grande virtude, e de que não devemos confiar em estranhos, como no chapeuzinho vermelho.
As histórias, atuais como há 200 anos, são um alerta também para adultos. Infelizmente, vemos cada vez mais o mundo se perdendo pela rivalidade excessiva, inveja e o complexo de superioridade, como no conto A gata borralheira, ou pela busca excessiva pela beleza, como acontece com o personagem da madrasta no Branca de Neve e os sete anões.
Nos contos dos irmãos Grimm, as pessoas bondosas são premiadas e as maldosas castigadas, não é como na vida real, mas ao menos é como deveria ser… Talvez seja mesmo um belo presente de natal explicar aos pequenos que aquilo que vemos de errado não é o normal, precisa ser mudado. Explicar que quem faz maldade deveria estar na cadeia, que quem trabalha deveria ter um salário justo, que quem ensina deveria ser reconhecido, que quem está doente deveria ser tratado, que ninguém deveria passar fome, que quem maltrata a natureza e os animas deveria ser punido…
Um belo presente de natal deveria ser mais leitura e conhecimento e menos consumismo. Ter a consciência de que as pessoas bondosas deveriam ser premiadas e de que as maldosas deveriam ser castigadas é uma bela arma para que as futuras gerações possam construir um mundo melhor, como no tempo em que os bichos falavam…
Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da-leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br. Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.