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Pouco é muito, artigo de Anoushe Duarte Silveira.


Noel Rosa.
Foto: Wikipedia

Uma borboleta vive em média de duas semanas a um mês. Ela, que é símbolo de liberdade, beleza e poesia fica no mundo, por míseros 30 dias, com muita sorte. Há algum tempo, divagando com amigos sobre isso— por que um ser que encanta tanto vive tão pouco, enquanto tem gente que vive por várias décadas e não transmite nada de bom a ninguém? — veio a resposta plausível: na verdade, não é a quantidade de tempo que determina o quanto você embeleza a vida de alguém ou de muitos, o quanto você compartilha bons sentimentos e deixa um legado … Pouco tempo pode ser muito!

Pouco tempo foi muito para Noel Rosa. O poeta do samba, um dos mais originais compositores de nossa história, viveu apenas 26 anos e produziu composições por menos de oito anos, o suficiente para criar 300 sambas e imprimir seu nome na história da música brasileira.

Nasceu há 102 anos, num parto difícil. Para não perderem o bebê e a mãe, os médicos usaram o fórceps, que deixou seu maxilar deformado, marca registrada. Filho de um casal de classe média baixa do bairro carioca de Vila Isabel, o garoto magro e debilitado aprendeu a tocar  bandolim com a mãe Marta. Já adolescente, começou a tocar violão nos círculos boêmios do Rio de Janeiro e entrou em contato com o então nascente samba dos morros e dos quintais do bairro do Estácio.

Gravou clássicos como Com que roupa?, seu primeiro grande sucesso, gravado para o carnaval de 1931, quando vendeu 15.000 discos. A inspiração para compor a música veio quando certa vez chegou em casa com a intenção de se vestir para uma festa e sua mãe havia escondido todas as suas roupas. Isso porque dona Marta vivia preocupada com a saúde debilitada do filho, e sempre pedia para que ele voltasse cedo para casa. Quando os amigos chegaram para buscá-lo, gritou da janela: – com que roupa? E virou letra de samba…

Poeta do samba, cronista do samba, por que não? Era capaz de narrar por meio da música fatos simples do cotidiano carioca, como no Conversa de Botequim: Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa/Uma boa média que não seja requentada/Um pão bem quente com manteiga à beça/Um guardanapo e um copo d’água bem gelada… E transformar em samba brigas de rua ou dores de amor, como na composição Pra que Mentir: Pra que mentir se tu ainda não tens/Esse dom de saber iludir?/Pra quê?! Pra que mentir/Se não há necessidade de me trair?/Pra que mentir, se tu ainda não tens/A malícia de toda mulher?

Até disputas viravam samba. Noel, depois de ouvir Lenço no Pescoço, no qual outro grande sambista da época, Wilson Batista, proclamava seu orgulho em ser vadio, escreveu o clássico, Rapaz Folgado. Noel se sentiu incomodado ao ver mais uma vez a palavra malandro ser usada como sinônimo de sambista. O samba de Batista começa: “Lenço no pescoço, tamanco arrastando…”, e vem a resposta de Noel: “Deixa de arrastar o teu tamanco, pois tamanco nunca foi sandália…”

Morreu vítima de tuberculose, antes mesmo de chegar aos trinta, deixando um enorme legado musical. Imagine o que teríamos dele se no último dia 11 de dezembro tivesse completado 102 anos? Teria colorido ainda mais o nosso samba… Livres e cheios de poesia, os 26 anos de Noel Rosa neste mundo encantaram o equivalente aos 30 dias da beleza de uma borboleta.


Anoushe Duarte Silveira é brasiliense, jornalista e bacharel em direito, pós graduada em documentário – com especialização em roteiros. Possui textos publicados em jornais e revistas e nos blogs http://www.amigas-da leitura.blogspot.com/ e http://www.recantodasletras.com.br.Possui livros publicados em co-autoria, selecionados em concursos literários.